“Ela estava me matando covardemente, com requintes de crueldade”, desabafou o médico Victor Murad em depoimento prestado em júri popular na manhã desta segunda-feira (26). Bruna Garcia Barbosa, ex-funcionária da clínica que pertencia a ele, é acusada de envenená-lo com arsênio.
O julgamento teve início às 9 horas, e o cardiologista foi o primeiro a prestar depoimento. Ele relatou que vinha apresentando vários sintomas, com o quadro de saúde se agravando, mas não chegou a desconfiar de que estava sendo envenenado. O fato foi descoberto quando encontraram o arsênio.
“Fui pesquisar e vi que os sintomas correspondiam ao envenenamento, o que foi confirmado com a biópsia do cabelo. Uma menina por quem eu tinha muita consideração e que me traiu covardemente, me matando com requintes de crueldade”, relatou.
Ele contou que, apesar de ser médico, professor de medicina e ter atuado em grandes hospitais com atendimento de urgência, nunca havia tratado um caso de envenenamento por arsênio e, por isso, não relacionou os sintomas que apresentava ao veneno.
Relatou que, na fase aguda, o veneno provoca dor abdominal intensa, vômito, diarreia com sangue, anemia e perda de dez quilos, sintomas que afirmou ter apresentado. Na fase crônica, informou que o arsênio afeta rins, ossos, dentes, fígado e pâncreas.
“Este tipo de veneno se dissemina pelo organismo e determina processo inflamatório sistêmico. Hoje, por exemplo, tenho glicose alta, tenho arritmia cardíaca, alterou meu cérebro, os sintomas de Parkinson”, informou Murad.
Segundo o médico, seu quadro clínico não se agravou ainda mais em função dos medicamentos anti-inflamatórios que já usava.
A contaminação, segundo o médico, ocorreu por meio da ingestão de água de coco que era servida a ele por Bruna durante a semana. Ele relatou que o produto foi encontrado após Bruna pedir demissão da clínica, junto a um vidro de laxante. “Dois meses após ela sair, nós encontramos o vidro e minha esposa me mostrou, e me assustei.”
Segundo ele, isso ocorreu após descobrirem o desvio de recursos da clínica e de suas contas pessoais. “Ela pediu demissão quando viu que descobrimos tudo. Confiava nela, mas hoje o sentimento é de revolta.”
O médico negou as acusações de qualquer envolvimento de sua esposa no envenenamento e se emocionou ao lembrar dos momentos que viveram juntos e de quanto ela o ajudou quando ele enfrentou uma cirurgia. “Hoje eu dependo da ajuda dela.”
Durante o depoimento, o médico também negou que fosse necessário usar arsênio para matar ratos. “Temos uma empresa que presta serviços de dedetização para a clínica e minha casa, não precisava comprar este tipo de remédio.”
O depoimento do médico foi encerrado às 12h29.
O caso foi descoberto em março do ano passado, quando o médico e a esposa desconfiaram que uma funcionária estaria desviando recursos da clínica, onde Bruna trabalhou por cerca de 12 anos. Ela exercia uma função de confiança, controlando o setor financeiro, e seria a responsável pela rotina alimentar do médico.
Segundo as investigações, o envenenamento teria sido cometido para mascarar o desvio, estimado entre R$ 600 mil e R$ 1 milhão, que teriam sido direcionados para a conta pessoal dela. O arsênio teria sido comprado por ela.
O advogado Jorge Florentino, que faz a defesa de Bruna, nega os crimes. Afirma que as acusações de que ela teria desviado recursos da clínica, o que seria o principal motivo para o envenenamento, não procedem.
“Há um processo criminal em curso sobre o suposto desvio. Não houve ainda nem mesmo uma denúncia por parte do Ministério Público. Como podem pensar em condená-la sem confirmar que tenha havido desvio de recursos?”, questiona.
Em depoimento à Justiça, ela justificou o recebimento do dinheiro em suas contas como gratificações voluntárias do médico, que a teria beneficiado com empréstimos e doações para viagens em razão de sua dedicação integral. Ela negou qualquer desvio fraudulento.