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Pesquisas erraram resultado da eleição? O que elas podem não ter captado, segundo especialistas

Abstenção caiu mais do que o previsto, e especialistas dizem que pesquisas podem ter falhado em captar mobilização da reta final.

Publicado em 27 de Outubro de 2026 às 12:33

BBC News Brasil

Publicado em 

27 out 2026 às 12:33
Imagem BBC Brasil
Comportamento eleitoral é complexo e cheio de nuances Crédito: Tânia Rêgo/Agência Brasil

As pesquisas de intenção de voto divulgadas na véspera do segundo turno apontavam para uma vantagem, ainda que apertada, de Flávio Bolsonaro (PL) em relação ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

No levantamentos divulgados pelo Datafolha e pela Quaest no sábado (24/10), o senador aparecia com 51% dos votos válidos, contra 49% do petista.

O resultado nas urnas, porém, mostrou uma realidade quase que inversa: Lula saiu vencedor, com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio.

A diferença reacendeu um debate recorrente em torno da confiabilidade das pesquisas. Mas o que explica os cenários tão distintos? É possível dizer que os institutos responsáveis pelas sondagens erraram?

Para especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, a resposta não é simples e tampouco é correto dizer que as pesquisas erraram.

Elas podem ter falhado em captar mudanças de comportamento ocorridas nos últimos dias da campanha, especialmente em relação ao comparecimento às urnas. Mas também é possível que o eleitorado tenha se movimentado depois que os levantamentos foram concluídos.

Em ambos os casos, o episódio expõe os desafios de medir eleições cada vez mais polarizadas, dizem.

"Em ambientes altamente polarizados, as preferências dos eleitores são muito estáveis, enraizadas e cristalizadas. O que acaba fazendo a diferença nos resultados são os fenômenos de mobilização relativa, o comparecimento às urnas ou turnout como ficaram conhecidos nos Estados Unidos", diz o CEO da AtlasIntel, Andrei Roman.

O que as pesquisas podem não ter capturado?

Por isso, diz Roman, o principal desafio desta eleição pode não ter sido medir a preferência dos eleitores, mas sim prever quem efetivamente compareceria às urnas.

Segundo ele, boa parte dos institutos tenta estimar não apenas a intenção de voto, mas também a probabilidade de cada entrevistado votar.

O problema é que os modelos foram calibrados com base no comportamento observado no primeiro turno, quando a abstenção foi de 21,08% e 33.469.244 eleitores não compareceram à urna.

A hipótese levantada por Roman é que muitos levantamentos partiram da premissa de que esse padrão se repetiria.

Na véspera da votação de domingo (25/10), no entanto, houve uma grande mobilização entre os eleitores de Lula e a taxa de abstenção caiu para 19,22%, a maior queda entre o primeiro e o segundo turno desde a redemocratização.

"Diante do que aconteceu no 1º turno, os institutos de pesquisa podem ter tendido a sobrevalorizar a mobilização bolsonarista e supor que isso se estenderia no mesmo padrão para o segundo turno", diz. "O que a gente se dá conta com muita clareza agora, depois que a eleição passou, é que aconteceu exatamente o contrário.

E, segundo o especialista, a mudança no foco da rejeição entre o primeiro e o segundo turno foi fator determinante para esses movimentos de mobilização — e as próprias pesquisas podem ter direcionado o comportamento de parte do eleitorado.

No primeiro turno, a rejeição estava concentrada no incumbente: após quatro anos de governo Lula com taxas de popularidade baixas, o eleitorado conservador e de direita viu a oportunidade de punir o governo, o que gerou uma supermobilização.

Por outro lado, os apoiadores do governo e os eleitores neutros não tinham o mesmo incentivo, pois as pesquisas indicavam que Lula venceria.

Imagem BBC Brasil
Crédito: EPA/Shutterstock; Reuters

Quando ficou claro que Flávio tinha chances reais e as pesquisas passaram a apontar de forma mais evidente seu favoritismo, tudo mudou, aponta Roman.

"O eleitorado se surpreendeu com essa liderança do Flávio e muitos que não participaram do primeiro turno se viram obrigados a votar para evitar algo que eles viam como um mal maior", avalia.

Roman afirma que o modelo da própria AtlasIntel levou em conta a mobilização relativa, mas subestimou sua magnitude.

A última pesquisa do instituto, divulgada na noite de sábado (24/10), mostrava Flávio com 50,8% dos votos válidos e Lula com 49,2%.

"A intensidade dos dois fenômenos de mobilização, tanto no primeiro quanto no segundo turno, nos surpreendeu", admite.

Houve uma virada de última hora?

Essa é outra hipótese considerada plausível pelo estatístico Raphael Nishimura, pesquisador da Universidade de Michigan.

Ele ressalta que institutos com metodologias bastante diferentes chegaram a resultados semelhantes nos dias finais da campanha. Datafolha, Quaest e AtlasIntel, por exemplo, apontavam para uma disputa apertada, mas com vantagem de Flávio Bolsonaro.

Para Nishimura, a convergência entre pesquisas tão distintas sugere que talvez elas estivessem retratando corretamente o cenário existente quando o trabalho de campo foi encerrado.

Nesse caso, uma mudança de comportamento nos dias ou horas finais da campanha poderia ajudar a explicar a diferença entre as pesquisas e o resultado das urnas.

"O que me chama atenção é que praticamente todos os institutos contaram a mesma história", diz. "Quando métodos diferentes chegam a conclusões parecidas, uma das possibilidades é que tenha ocorrido alguma movimentação depois."

Essa movimentação poderia envolver eleitores indecisos, mudanças de voto de última hora ou mesmo um comparecimento maior do que o previsto entre determinados grupos. Segundo a Quaest, cerca de 10% do eleitorado só define o voto para presidente no dia da eleição.

Ainda assim, o pesquisador ressalta que não há evidências suficientes para afirmar com segurança qual dessas explicações teve maior peso.

"Não gosto de falar que as pesquisas acertaram ou erraram", diz. "Pesquisa não é um prognóstico das eleições, elas retratam o que o eleitorado está pensando no momento da coleta."

"Se o eleitor muda de opinião ou toma sua decisão depois que a pesquisa foi coletada, não tem como conseguir captar."

É o mesmo que aponta Paula Orrico, diretora técnica da Futura Inteligência. O instituto foi o que mais se aproximou do resultado nas pesquisas divulgadas na véspera das eleições.

O instituto vinha captando a aproximação de Lula ao longo da semana. A Futura faz pesquisas diárias. Na semana logo após o primeiro turno, Flávio liderava por cerca de 3,5 pontos nas projeções.

Na segunda, a diferença caiu para 2,5. E, na última, a distância diminuiu de forma mais acelerada, sobretudo a partir da última quarta-feira. "De sexta para sábado é que teve a virada", pontua.

Seu último levantamento, divulgado no sábado, indicava empate técnico: Flávio apareceu com 50,1% dos votos válidos e Lula com 49,9%.

A pesquisa combinou o campo de sexta e de sábado, período em que já foi observado o crescimento do petista. Caso usasse apenas entrevistas de sábado, o cenário poderia ser mais preciso.

"Se a gente tivesse feito a amostra toda no sábado, certamente ela já pegaria esse crescimento de Lula e ele à frente, embora não ache que pegaria com o percentual que veio na urna", afirma.

Depois do resultado, Roman publicou no X que a Futura "teve mais coragem" que os outros institutos que usaram modelos de eleitor provável "errôneos", com medo de subestimar Flávio Bolsonaro.

Segundo ele, isso fez os grandes institutos superestimarem o desempenho do senador, e que a própria AtlasIntel errou ao optar por cinco dias de coleta na pesquisa de véspera.

Paula diz que a Futura ficou "lisonjeada" com o reconhecimento, mas que a palavra "coragem" a surpreendeu. "Isso nunca foi uma preocupação nossa. A gente nunca trabalhou aqui na Futura pensando nisso", afirma.

"Por um bom tempo, a Futura foi criticada porque, segundo o mercado, a gente superestimava a direita. E talvez por isso essa nunca tenha sido uma preocupação nossa", afirma.

"Quando a gente pegou o resultado, não teve muita dúvida: é o resultado que a gente vai publicar e vamos embora."

Como as pesquisas chegam aos seus números?

Antes de divulgar um resultado, os institutos precisam decidir quantas pessoas serão entrevistadas. Esse cálculo leva em conta fatores como a margem de erro desejada e o nível de confiança da pesquisa. Em geral, quanto menor a margem de erro, maior precisa ser a amostra, o que torna o levantamento mais caro e complexo.

Definido o tamanho da amostra, os pesquisadores estabelecem quais grupos da população deverão estar representados nela. As pesquisas eleitorais brasileiras costumam usar sistemas de cotas baseados em características como sexo, idade, escolaridade e, em alguns casos, renda. Os parâmetros normalmente são extraídos de bases oficiais, como o Censo e a Pnad do IBGE, para que a amostra reflita o perfil do eleitorado.

A coleta de dados pode ser feita presencialmente, por telefone ou pela internet. Cada método tem vantagens e limitações. Pesquisas online, por exemplo, podem alcançar menos eleitores de baixa renda ou com menor acesso à internet, enquanto levantamentos presenciais e telefônicos enfrentam desafios como recusas de participação e dificuldades de acesso a determinados grupos.

Além do erro amostral, geralmente divulgado junto aos resultados, os pesquisadores precisam lidar com uma série de fatores mais difíceis de medir, como eleitores que se recusam a responder, entrevistados que não compreendem corretamente as perguntas ou pessoas que afirmam que irão votar e acabam não comparecendo às urnas.

Para reduzir esses desequilíbrios, os institutos costumam realizar ajustes estatísticos após a coleta, atribuindo pesos diferentes a determinados grupos de entrevistados para aproximar a amostra do perfil real do eleitorado.

Nos últimos anos, muitos institutos também passaram a incorporar modelos conhecidos como likely voter ("eleitor provável"), comuns nos Estados Unidos. A ideia é estimar quais entrevistados têm maior chance de comparecer às urnas e dar maior peso no resultado final da pesquisa a eles.

Esses modelos levam em conta fatores como interesse por política, histórico de participação eleitoral e intenção declarada de votar. Em alguns casos, também são combinados com dados de comparecimento observados em eleições anteriores.

As pesquisas Datafolha, BTG/Nexus e AtlasIntel, divulgadas na véspera do segundo turno, consideraram o cálculo do "eleitor provável".

"Cada instituto mantém a sua própria prática, mas posso dizer que não é um exercício fácil, porque muitas vezes as pessoas exageram sua convicção ou disposição de ir votar", afirma Andrei Roman, da AtlasIntel.

O estatístico Raphael Nishimura aponta ainda que pode ser mais simples fazer esse cálculo em um país como os Estados Unidos, em que o registro de eleitores é público e é possível saber o histórico de comparecimento, além de informações demográficas mais detalhadas sobre cada um dos cidadãos registrados para votar.

"Em vez de dados individuais, o que se tem no Brasil são estatísticas gerais publicadas pelo TSE que mostram apenas dados agregados por zona eleitoral, como a quantidade de homens, mulheres, faixas de idade e escolaridade que compareceram ou não", diz.

E embora alguns institutos usem esses dados do TSE para tentar estimar modelos semelhantes, a falta de dados individuais e históricos por eleitor torna o processo muito mais complexo e limitado, aponta.

A Futura adotou outro caminho. Segundo Paula Orrico, o instituto não usa modelo de eleitor provável: trata a abstenção apenas perguntando às pessoas se vão votar.

"[O likely voter] não é cálculo simples de ser feito. É um cálculo complexo e que usa como base resultados de abstenção de eleições anteriores, imaginando que o eleitor vai se comportar da mesma maneira numa eleição seguinte", afirma.

"E o que essa eleição trouxe para a gente é que justamente isso não é verdade. A gente viu, nessa reta final, uma capacidade muito grande de mobilização do eleitor que não tinha ido votar, ou que tinha votado branco e nulo no primeiro turno. A nossa grande crítica a esse modelo sempre foi imaginar que uma eleição repete o comportamento da anterior."

Dá para resolver esse problema?

Os especialistas afirmam que não existe uma solução simples, mas há formas de aperfeiçoar as metodologias.

Para Roman, os institutos podem desenvolver modelos mais sofisticados para estimar comparecimento eleitoral, incorporando um número maior de variáveis relacionadas ao engajamento político dos entrevistados.

Já Nishimura defende que os institutos invistam mais em estudos pós-eleitorais. Uma das possibilidades seria voltar a entrevistar participantes das pesquisas após a eleição para verificar quem efetivamente compareceu às urnas e se houve mudança de voto nos últimos dias de campanha.

Isso permitiria entender melhor se diferenças entre pesquisas e resultados ocorreram por limitações metodológicas ou por mudanças reais no comportamento do eleitorado.

Além disso, avaliações desse tipo poderiam ajudar a calibrar modelos futuros e reduzir a margem de erro em eleições semelhantes.

Uma ferramenta frequentemente lembrada nesse debate são as pesquisas de boca de urna, cada vez mais raras no Brasil desde que a apuração eletrônica passou a divulgar resultados oficiais poucas horas após o fechamento das urnas.

Diferentemente das pesquisas convencionais, elas entrevistam eleitores depois que o voto já foi registrado. Por isso, eliminam uma série de incertezas presentes nos levantamentos de intenção de voto, como mudanças de opinião de última hora, indecisão ou ausência no dia da eleição.

Para Roman, esse tipo de pesquisa poderia ser especialmente útil não para prever vencedores, mas para compreender exatamente quais grupos compareceram às urnas e como votaram.

"Mesmo que não sejam mais necessárias para antecipar o resultado, elas ainda seriam úteis no contexto brasileiro para aferir, com maior certeza e precisão, as dinâmicas e distribuições demográficas", diz.

Nishimura acrescenta que as bocas de urna são uma das poucas ferramentas que podem ser comparadas diretamente ao resultado oficial para avaliar seu grau de precisão.

Essas informações poderiam contribuir para aprimorar os modelos utilizados antes da eleição e ajudar institutos a compreender melhor os padrões de comparecimento eleitoral.

A Futura, por sua vez, não planeja mudar a metodologia. Segundo Orrico, o telefone segue como o melhor método, na sua visão, por permitir chegar a qualquer eleitor.

Ela reconhece que cresce a dificuldade de fazer as pessoas atenderem ligações desconhecidas, mas descarta o presencial, por entender que a pandemia mudou o perfil de quem está nas ruas e que a população mora cada vez mais em apartamentos, de acesso difícil.

O online, diz, deixa de fora quem não tem acesso constante à internet e dificulta garantir quem está respondendo. O instituto estuda o uso de inteligência artificial na coleta, mas ainda não tem posição.

"Um ponto que a gente precisa educar as pessoas é entender que pesquisa não é urna", diz Paula. "Pesquisa é um retrato do momento. O mercado de pesquisa não é mercado de previsão, é mercado de entender a opinião das pessoas no momento em que a pesquisa está sendo feita."

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