Quatro delegados, incluindo Romualdo Gianordoli Neto, e três investigadores foram indiciados pela Corregedoria da Polícia Civil em inquérito já encaminhado à Justiça do Espírito Santo.
A investigação aponta para a criação de uma estrutura paralela de inteligência, com desvio de dados sigilosos para supostos fins de chantagem política e ascensão profissional.
Entre as irregularidades apontadas, destacam-se a ocultação de indícios de corrupção envolvendo autoridades e até indiciamento indevido de alvos em situações que teriam o objetivo de mascarar interesses pessoais.
Os indiciados negam todas as acusações (veja abaixo), apontando ilegalidade, abuso de poder e distorção do papel institucional da Polícia Civil.
O inquérito lista os nomes dos delegados Romualdo Gianordoli Neto, Alan Moreno de Andrade, José Lopes Pereira e Ricardo Almeida. E os policiais Giancarlos Mercês Rizzi, Karenn Mendonça e Felipe Rosemberg.
Contra eles são apontados crimes como prevaricação (deixar de praticar atos de ofício por benefício pessoal), concussão (exigir vantagem indevida), organização criminosa e falsidade ideológica, entre outros.
Inquérito com o MP
Por nota, o Ministério Público do Espírito Santo (MPES) informa que recebeu o inquérito policial, e que atualmente está em análise pela Promotoria de Justiça Regional de Investigação Criminal e Controle Externo da Atividade Policial.
Acrescenta que o caso tramita sob sigilo e, por essa razão, não é possível a divulgação de outras informações. “O MPES reafirma seu compromisso com a atuação responsável e o respeito às garantias legais que regem a condução dos procedimentos”, finaliza.
Em ofício encaminhado à Corregedoria, a que a coluna teve acesso, o MP orienta sobre mudanças a serem realizadas no inquérito. Entre elas, a instauração de outras investigações a partir de informações fornecidas por Romualdo em seu depoimento, sobre crimes que teriam sido praticados por autoridades.
E que em função disto, deveriam ser retirados documentos que foram anexados pela Corregedoria ao IP.
As operações
A Corregedoria cita que dados sigilosos de algumas investigações teriam sido ocultados ou com produção de relatórios parciais. Ações que fariam parte de um Centro de Investigação de Análise Telemática (Ciat) “paralelo”, criado para produzir relatórios com conteúdos que a alta cúpula da Segurança no Estado não tinha conhecimento e que seriam utilizados para finalidades diversas da investigação policial.
Entre elas foi citada a Operação Baest, realizada em 2025, e apontada como uma das mais relevantes dos últimos anos por alcançar o braço financeiro do Primeiro Comando de Vitória (PCV). Ela resultou na apreensão de R$ 100 milhões em bens e no indiciamento de 20 pessoas supostamente ligadas a crimes de lavagem de capitais. Os quatro delegados que a assinaram foram indiciados.
Um dos exemplos apontados, de acordo com a Corregedoria, diz respeito aos dados do celular de um dos investigados, um empresário da Serra, e que continha informações não reveladas, como as conversas com o desembargador Macário Júdice Neto, do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2), preso no Rio de Janeiro por suspeita de obstrução de investigação, entre outras informações.
É citada uma segunda operação contra outro empresário, com apreensão de armas. Há suspeitas sobre a forma como a ação foi realizada e sobre a extração de dados do celular do investigado, cujos dados teriam sido utilizados contra políticos visando suposta ascensão profissional.
“Abuso de autoridade”
Por nota, Romualdo classifica o inquérito como “inaceitável e revoltante”, assinalando que foram alvo de indiciamento os delegados que assinaram o relatório final da Operação Baest e os investigadores que atuaram na apuração.
Acrescenta que não há “fato concreto e juridicamente definido” que justifique o inquérito. “Trata-se de uma investigação sem objeto claro, construída para inverter completamente a realidade: transforma um investigado por crimes graves — como tráfico de drogas, agiotagem, falsificação e lavagem de dinheiro — em vítima, enquanto tenta criminalizar policiais que cumpriram rigorosamente seu dever”.
Acrescenta que os argumentos utilizados no indiciamento são, na essência, os mesmos sustentados pela defesa do investigado. “Essa coincidência não é trivial e levanta fortes indícios de desvio de finalidade na condução do procedimento. Não se trata apenas de um erro — trata-se de uma distorção grave do papel institucional da Polícia Civil”.
Finaliza acrescentando que medidas cabíveis serão adotadas para responsabilizar eventuais abusos e restaurar a verdade dos fatos. “A Operação Baest foi conduzida com base em provas, inteligência e legalidade, sempre se reunindo com o Gaeco para tratar sobre as diligências. O que está em curso é uma tentativa clara de deslegitimar o combate ao crime organizado e intimidar aqueles que ousaram enfrentar estruturas criminosas”.
O delegado Ricardo Almeida informou que foi surpreendido com o indiciamento, destacando que não chegou a ser ouvido pela Corregedoria. “Minha manifestação não foi anexado ao inquérito”.
Acrescentou que tinha designação para atuar no caso por ser o delegado responsável pelo LAB, laboratório responsável pelas investigações de lavagem de dinheiro, vinculado ao Ciat. E destaca que a assinatura no relatório da Operação Baest foi colegiada. “O que está sendo feito é uma ilegalidade e abuso de autoridade”.
O delegado Alan Moreno informou que não se manifesta. O delegado José Lopes não retornou aos contatos, assim como os três policiais.