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Violência contra a mulher

Quando é hora de agir: o papel coletivo no combate ao feminicídio

A responsabilidade coletiva exige que cada pessoa ultrapasse a mera lamentação e se envolva ativamente. Esse engajamento é fundamental para criar e fortalecer mecanismos de proteção e apoio

Publicado em 30 de Março de 2026 às 03:20

Públicado em 

30 mar 2026 às 03:20
Verônica Bezerra

Colunista

Verônica Bezerra Verônica Bezerra
O recente assassinato de Dayse Barbosa encerrou um período de 650 dias sem feminicídio em Vitória, trazendo à tona a persistência da violência contra a mulher, independentemente de classe social ou cargo que ocupa, e evidenciando a necessidade de uma resposta efetiva por parte de toda a sociedade. Esse acontecimento reforça que não é mais aceitável tolerar a omissão, especialmente quando o agressor está inserido em nosso convívio social, familiar ou profissional. O agressor está ao nosso lado.
O silêncio diante da violência doméstica, que vem justificado das mais diversas formas radicalizadas no machismo estrutural, contribui para perpetuar o problema. Essas atitudes impedem a proteção das vítimas e favorecem a continuidade do ciclo de agressões. Por isso, é fundamental reconhecer e combater essas formas de conivência, promovendo uma postura ativa e responsável.
A primeira atitude diante de casos de violência deve ser acolher e apoiar a vítima. Isso implica oferecer uma escuta ativa, demonstrando empatia e compreensão, além de orientar sobre os canais de denúncia disponíveis, como o “Ligue 180”, delegacias especializadas e redes de apoio locais. Essas iniciativas são indispensáveis para romper o ciclo de violência e garantir que a vítima receba o suporte necessário.
A comandante da Guarda Municipal de Vitória, Dayse Barbosa, foi morta a tiros na madrugada desta segunda-feira (23). Espírito Santo
A comandante da Guarda Municipal de Vitória, Dayse Barbosa, foi morta a tiros na madrugada de segunda-feira (23) Crédito: Reprodução/Rede social
A responsabilidade coletiva exige que cada pessoa ultrapasse a mera lamentação e se envolva ativamente. Esse engajamento é fundamental para criar e fortalecer mecanismos de proteção e apoio, promovendo uma sociedade mais consciente e preparada para combater essas injustiças.
Não basta apenas reconhecer as tragédias, é necessário romper com padrões culturais que sustentam o machismo e perpetuam a desigualdade de gênero. Esse processo requer discussões abertas e honestas, em que crenças e valores sejam desconstruídos para dar lugar a novas formas de pensar e agir, fundamentadas no respeito e na equidade.
Promover debates, incentivar a desconstrução de crenças prejudiciais e motivar todos a se posicionarem de forma clara e ativa são atitudes indispensáveis para prevenir futuras tragédias. O envolvimento coletivo, pautado pela responsabilidade e coragem, é o caminho para transformar a realidade, protegendo vidas e promovendo justiça.
O combate ao feminicídio exige, primeiramente, atitudes concretas de cada pessoa. Identificar situações de risco e não hesitar em denunciá-las, independentemente de quem seja o agressor, representa um compromisso com a vida e a dignidade das mulheres. A recusa em ignorar os sinais de violência, aliada à disposição para orientar e encaminhar vítimas para redes de apoio, fortalece o ambiente de proteção e encoraja outras pessoas a agirem de forma semelhante. No entanto, esforços individuais só ganham força plena quando somados a uma mobilização coletiva.
A verdadeira transformação ocorre quando deixamos de ser meros espectadores ou cúmplices do silêncio e assumimos o papel de agentes ativos na construção de um novo cenário social. Cada gesto de apoio, denúncia e engajamento contribui para a erradicação do feminicídio e para o fortalecimento de uma cultura de respeito, equidade e justiça para todas as mulheres.
A morte de Dayse Barbosa não pode ser apenas mais uma estatística. É um chamado à ação, à empatia e à responsabilidade. O caminho para erradicar o feminicídio é longo, mas cada gesto de coragem, apoio e denúncia aproxima-nos de uma sociedade onde essa violência não tenha lugar.
A primeira hora é a de agir. Ao menor sinal é o momento de intervenção. A antessala do feminicídio não pode ser confundida com amor. Mulheres são destinadas a viver, e não a se tranformar em estampa de camisa.

Verônica Bezerra

Verônica Bezerra Verônica Bezerra

É advogada, doutoranda em Ciências Sociais, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais, especialista em Direitos Humanos e Segurança Pública

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