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É diretor-presidente do ES em Ação

Violência contra a mulher: sociedade precisa perder o medo de agir

Denunciar não é intromissão, é responsabilidade. O silêncio contribui para a perpetuação da barbárie

  • Fernando Saliba É diretor-presidente do ES em Ação
Publicado em 24/03/2026 às 15h13

Iniciamos a semana com mais uma notícia estarrecedora: a morte da comandante da Guarda Civil Municipal de Vitória, a primeira mulher na história da corporação nesse cargo, assassinada com cinco tiros na cabeça. O principal suspeito: seu ex-namorado, um policial rodoviário federal, que tirou a própria vida em seguida. Os casos de violência contra a mulher não são isolados. No Espírito Santo, foram quatro feminicídios neste ano.

E não para por aí: segundo a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Estado (Sesp-ES), em 2025, foram 26.363 casos de violência contra a mulher; e neste ano já são 5.092 ocorrências. Se falarmos de estupro de vulnerável, o Estado registrou mais de dois casos por dia neste ano, ao todo, 143, e em 75,5% deles o crime foi cometido contra crianças e adolescentes de até 14 anos.

No Brasil, o cenário é igualmente alarmante. O país registrou, em 2025, um recorde de feminicídios: 1.518 mulheres assassinadas, uma média de quatro por dia. Também houve cerca de 15 estupros coletivos por dia, sendo a maioria das vítimas menores de idade. Casos recentes, como o de uma adolescente de 17 anos vítima de estupro coletivo cometido por cinco homens, evidenciam uma realidade que não pode mais ser tratada como exceção.

Diante desse cenário, é inevitável questionar: que sociedade estamos construindo? Onde estamos falhando como comunidade? E, sobretudo, o que podemos e devemos fazer para mudar essa realidade?

A resposta passa por uma atuação integrada. Do ponto de vista da segurança pública, é fundamental fortalecer os mecanismos de proteção às vítimas, ampliar a presença policial, garantir celeridade nas investigações e rigor na responsabilização dos agressores. Leis existem, mas sua efetividade depende de aplicação consistente.

No campo preventivo, a educação é o eixo central. Precisamos avançar na formação de crianças e jovens com valores como respeito, empatia, tolerância, responsabilidade, autocontrole e diálogo. A escola tem papel decisivo, mas não pode atuar sozinha: família e sociedade também precisam assumir esse compromisso.

No caso da violência contra a mulher, esse processo passa, necessariamente, por uma mudança de postura dos homens. É preciso rejeitar comportamentos abusivos de controle, ciúme excessivo e qualquer forma de desrespeito, além de assumir uma posição ativa de enfrentamento: não sendo conivente nem se omitindo, mas intervindo diante de situações de agressão.

As empresas também têm um papel estratégico nesse enfrentamento. É no ambiente de trabalho que muitos desses homens agressores estão inseridos, e as organizações podem atuar de forma ativa na conscientização e prevenção. Programas internos de educação, campanhas sobre respeito e combate à violência, treinamentos sobre comportamento e gestão de conflitos, além da promoção de uma cultura organizacional baseada em ética e responsabilidade, são caminhos possíveis.

A comandante da Guarda Municipal de Vitória, Dayse Barbosa, foi morta a tiros na madrugada desta segunda-feira (23). Espírito Santo
A comandante da Guarda Municipal de Vitória, Dayse Barbosa, foi morta a tiros na madrugada desta segunda-feira (23). Crédito: Reprodução/Rede social

Outro ponto crucial é a capacidade de identificar sinais de alerta, como mudanças bruscas de comportamento ou medo excessivo e marcas físicas nas vítimas, além de um controle excessivo do parceiro, ameaças e humilhações. Muitas vezes, a intervenção precoce pode salvar vidas. A solicitação de medidas protetivas pode ser vital. Também é essencial fortalecer redes de apoio e discutir saúde mental com mais seriedade, já que muitos episódios de violência estão ligados a comportamentos de impulsividade e dificuldade em lidar com frustrações.

A sociedade precisa ainda perder o medo de agir. Denunciar não é intromissão, é responsabilidade. O silêncio contribui para a perpetuação da barbárie.

Não podemos naturalizar a violência. Desenvolvimento também depende da capacidade de proteger vidas, especialmente as mais vulneráveis. Não podemos aceitar que histórias como essas se repitam. A construção de uma sociedade mais segura e humana depende de todos nós. Essa história precisa chegar ao fim.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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