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Agente da PRF que matou comandante da Guarda de Vitória respondia a processo por importunação sexual

Agente da PRF que matou comandante da Guarda de Vitória respondia a processo por importunação sexual

O procedimento investigativo instaurado pela Corregedoria da PRF no Rio de Janeiro em 2025 é resultado de uma denúncia de uma ex-agente da corporação

Publicado em 23 de março de 2026 às 20:52

Diego Oliveira de Souza, policial rodoviário federal matou Dayse e em seguida tirou a própria vida, no Espírito Santo
Diego Oliveira de Souza, policial rodoviário federal matou Dayse e em seguida tirou a própria vida, no Espírito Santo Crédito: Reprodução | Rede Social

O policial rodoviário federal Diego Oliveira de Souza, que matou a tiros a namorada Dayse Barbosa, de 37 anos, comandante da Guarda Municipal de Vitória, e se suicidou em seguida, respondia a um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) na corporação por importunação sexual.

Segundo apurou a repórter Julia Camim, do g1 ES, o procedimento investigativo instaurado pela Corregedoria da PRF no Rio de Janeiro em 2025 é resultado de uma denúncia por importunação sexual contra uma ex-agente. Diego foi admitido em 2020 e era lotado na Delegacia de Campos dos Goytacazes (RJ).

Em nota, a PRF informou que o PAD foi instaurado assim que a corporação tomou conhecimento da denúncia. A investigação poderia resultar na demissão do servidor e estava em fase final do processo investigativo. O g1 apurou que a expectativa era de que o PRF fosse demitido.

A instituição adotou medidas administrativas para manter o distanciamento entre os dois agentes no ambiente de trabalho

PRF

Em nota

Oficialmente, Diego era investigado pela suposta prática de incontinência pública e conduta escandalosa, na repartição, que consta no Artigo 132, inciso V, da Lei n° 8112/90.

Diego Oliveira de Souza matou a namorada, a comandante da Guarda Municipal de Vitória Dayse Barbosa
Diego Oliveira de Souza matou a namorada, a comandante da Guarda Municipal de Vitória Dayse Barbosa Crédito: Redes Sociais

Não aceitava o término

Segundo a titular da Delegacia de Homicídios e Proteção à Mulher, delegada Raffaella Aguiar, Diego pode ter cometido o crime por não aceitar o fim do relacionamento. As investigações apontam que a guarda tentava romper com o PRF, um homem considerado "possessivo e extremamente controlador".

Para a delegada, a violência de gênero sofrida por Dayse diz sobre "quem é o homem".

Diz sobre ela não querer mais aquele relacionamento e ele falar: 'Não, você é minha e agora você vai pagar até mesmo com a sua vida, porque a partir do momento em que eu enxergo que você é meu objeto, você é um instrumento da minha dominação

Delegada Raffaella Aguiar

Titular da Delegacia de Homicídios e Proteção à Mulher

Apesar da postura violenta do policial, que, segundo o pai de Dayse, Carlos Roberto Teixeira, já havia tentado enforcar a guarda, ela nunca o denunciou ou relatou as agressões aos colegas de trabalho. "A comandante nunca tinha relatado (casos de violência) para os companheiros dela, lá da Guarda Municipal, bem como não tem nenhum registro junto à Polícia Civil", contou a delegada.

Para Raffaella Aguiar, o caso mostra que a violência não é motivada por algum comportamento ou característica da vítima, e sim pelo fato de ela ser uma mulher, independentemente de sua posição ou força.

"O caso é tão emblemático, porque ele mostra que não é sobre quem é a vítima, porque ela (Dayse) é uma mulher forte, uma autoridade. [...] A violência não começa naquele momento em que houve o primeiro disparo que ceifou a vida dela".

A tragédia aconteceu na madrugada desta segunda-feira (23), por volta das 3h, no bairro Mário Cypreste, na Capital. Em seguida, Diego Oliveira de Souza tirou a própria vida

O crime

Dayse foi morta com cinco tiros na cabeça por volta de 1h desta segunda-feira (23), na casa onde ela morava com o pai e a filha de 8 anos, no bairro Santo Antônio, em Vitória. Depois do crime, Diego foi até a cozinha e tirou a própria vida.

De acordo com o delegado-chefe do Departamento Especializado de Homicídio e Proteção à Pessoa (DHPP), Fabrício Dutra, tudo indica que o caso se trate de um feminicídio.  Os celulares dos dois vão ser encaminhados para análise pericial para tentar descobrir a motivação para o crime. Segundo a Polícia Rodoviária Federal (PRF), Diego trabalhava em Campos dos Goytacazes, no Norte Fluminense, e entrou na corporação em 2020.

Escada para invadir a casa

Diego usou uma escada para invadir a casa e chegar até Dayse, que dormia no quarto da filha, por causa do aparelho de ar-condicionado. Segundo o secretário de Segurança Urbana de Vitória, Amarílio Boni, há indícios de que o crime tenha sido premeditado.

"A circunstância é que ele foi com o intuito de cometer o feminicídio. Ele levou materiais para entrar na residência e subir na marquise. Tudo indica que ele a pegou deitada, dormindo, e efetuou os disparos sem possibilidade de reação", afirmou o secretário Amarílio Boni.

Escada usada pelo namorado para entrar na casa de Dayse Barbosa e matá-la, no Espírito Santo
Escada usada pelo namorado para entrar na casa de Dayse Barbosa e matá-la, em Vitória Crédito: Reprodução

Na mochila dele, a polícia encontrou um canivete, uma faca, um vidro de álcool, carregadores de munição, alicate e um isqueiro. De acordo com o secretário, a vítima foi surpreendida enquanto dormia e não teve chance de se defender. A cena encontrada no quarto indica que ela ainda chegou a se levantar antes de ser atingida.

'No primeiro tiro, acordei', diz pai 

O pai de Dayse, o aposentado Carlos Roberto Teixeira, estava em casa no momento do crime. Ele contou que acordou ao ouvir o primeiro disparo. "Não deu tempo de nada, ele entrou atirando. No primeiro tiro eu já acordei. Abri a porta devagarzinho, olhei, vi ele correndo, mas não deu pra sair, fiquei com medo de tomar um tiro também”, relatou o pai. Carlos também acredita que o crime foi motivado pela tentativa da filha de encerrar o relacionamento.

A comandante da Guarda Municipal de Vitória, Dayse Barbosa, foi morta a tiros na madrugada desta segunda-feira (23). Espírito Santo
A comandante da Guarda Municipal de Vitória, Dayse Barbosa, foi morta a tiros na madrugada desta segunda-feira (23) Crédito: Reprodução/Rede social

Investigações

Uma equipe da Polícia Científica esteve na casa da comandante para realizar a perícia e conversou com familiares. O caso vai ser investigado pela Delegacia Especializada de Homicídio e Proteção à Mulher (DHPM) de Vitória. Em nota, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) manifestou pesar pelo falecimento da comandante. Leia a nota na íntegra:

"A Polícia Rodoviária Federal (PRF) manifesta enorme pesar pelo falecimento de Dayse Barbosa Matos, comandante da Guarda Civil Municipal de Vitória (ES), em ocorrência de homicídio e autoextermínio que também resultou na morte do Policial Rodoviário Federal Diego Oliveira de Sousa, lotado na Delegacia da PRF em Campos dos Goytacazes (RJ). Os fatos estão sob apuração das autoridades competentes. A Polícia Rodoviária Federal está à disposição para colaborar com as investigações. A PRF lamenta profundamente as circunstâncias da ocorrência, ao mesmo tempo que reitera seu compromisso com a vida, contra o feminicídio e a violência contra as mulheres".

Com informações de Julia Camim, do g1 ES

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