É com respeito à memória de mulheres que diariamente têm suas vidas abruptamente interrompidas pelo machismo e pela discriminação e à dor de seus familiares que inicio esta reflexão. Não podemos aceitar que as mortes de mulheres sejam tratadas como rotina estatística, como números. Eles traduzem experiências concretas de dor, medo e sobrevivência. Cada feminicídio representa uma falha coletiva, que começa nas ameaças, no controle, no silêncio, nas piadas machistas, nos nudes e na ideia de posse e objetificação dos corpos das mulheres.
É preciso dizer que, no Brasil, mulheres seguem sendo mortas por serem mulheres. São mortas quando tentam terminar um relacionamento, quando decidem ir embora, quando dizem não, quando dizem sim. Morrem por resistirem às opressões e lutar pelo direito de viver, e isso não pode ser naturalizado.
A violência contra as mulheres nem sempre começa com um grito, um empurrão ou um tapa. Xingamentos, críticas constantes, desmerecimento, humilhações repetidas no dia a dia são palavras que vão sendo ditas e fazem com que, aos poucos, a mulher passe a duvidar de si, das próprias escolhas, da própria capacidade de sair. É uma violência silenciosa, que adoece. Em muitos casos, começa a acreditar que permanecer naquela relação é o único caminho possível: “mas ele é bom para mim”.
Mulheres são submetidas a situações de manipulação emocional que, muitas vezes, não deixam marcas visíveis, mas provocam impactos profundos. O agressor distorce a realidade, manipula emoções e faz com que a mulher duvide de si mesma, técnica conhecida como gaslighting, uma estratégia em que o agressor a leva a duvidar de suas próprias percepções e sentimentos.
Nos últimos dias, o país foi marcado pela notícia de duas mulheres, jovens, com carreiras consolidadas, separadas por mais de 700 quilômetros — a primeira, a Policial Militar no estado de São Paulo; a segunda, a guarda municipal da capital do Espírito Santo —, mas unidas por uma mesma história: ambas foram mortas por seus companheiros, ambos agentes da segurança pública.
As duas histórias expõem tabus que insistimos em acreditar, de que a mulher permanece em uma relação violenta por dependência econômica. Não era o caso. Ambas eram concursadas, tinham autonomia financeira e ocupavam funções de responsabilidade. Ainda assim, isso não as protegeu nem as fortaleceu para denunciar e pedir ajuda.
Também nos deixam um alerta, o feminicídio não começa com o tiro. Não é um ato isolado, mas o resultado de um processo contínuo de violências contra as mulheres, que se agrava ao longo do tempo. Ameaças, controle, relações marcadas por ciúmes e instabilidade não são episódios isolados. Fazem parte da escalada da violência que pode acabar no feminicídio. Não eram histórias sem aviso.
No Espírito Santo, a vítima era a primeira mulher a comandar a Guarda Municipal de Vitória. Foi assassinada pelo companheiro, dentro de casa, a tiros, na madrugada de 23 de março de 2026. A relação durava cerca de quatro anos. Segundo o pai, havia situações de violência, mas não houve registro formal das agressões.
Em São Paulo, o medo já aparecia nas palavras da própria vítima: “Tem que controlar os ciúmes dele. Qualquer hora me mata. Fica cego”. A mãe da policial assassinada relatou um relacionamento conturbado, marcado por controle e restrições ao comportamento da filha.
No ano de 2025, o Brasil registrou a média de quatro mulheres assassinadas por dia, a maior taxa desde a criação do tipo penal, em 2015. Diante disso, o que fazer? Não tenho dúvida em afirmar que as mulheres não podem permanecer em silêncio. Buscar ajuda, contar para alguém pode interromper a violência antes que ela se agrave.
Também é urgente investir em educação para a igualdade de gênero, para que homens aprendam a lidar com conflitos sem recorrer à violência. É preciso enfrentar o machismo estrutural entranhado na nossa sociedade, que todos os dias deixa mães sem suas filhas e filhos e filhas sem suas mães.
Mulher não fique em silêncio
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