A recente e triste notícia de feminicídio envolvendo a comandante da Guarda Municipal de Vitória, Dayse Barbosa, morta a tiros, no bairro Caratoíra, em Vitória, impõe uma reflexão urgente: a violência contra a mulher não é um fato isolado, tampouco restrito a determinados contextos sociais. Trata-se de um fenômeno estrutural, enraizado em uma construção histórica que ainda naturaliza o controle e a violência sobre o feminino.
A análise da violência doméstica deve começar pela estrutura social e cultural do patriarcado que, historicamente, assegura ao homem o controle sobre as mulheres, sustentado pela manutenção da desigualdade, pela ideia de posse e pela manipulação. Nesse modelo, a mulher é frequentemente vista como figurante em uma sociedade que resiste em reconhecê-la como sujeito pleno de direitos.
O machismo estrutural e a misoginia alimentam o ódio às mulheres, à sua liberdade e à sua individualidade. Ao longo das últimas décadas, conquistamos direitos fundamentais, como o voto, o acesso ao trabalho, a independência financeira e, sobretudo, o direito de existir com dignidade. Ainda assim, essas conquistas não foram suficientes para romper completamente com as bases culturais que sustentam a desigualdade de gênero.
Ver a mulher em posição de liderança, com independência financeira e protagonismo em espaços historicamente ocupados por homens, ainda provoca incômodo em uma sociedade construída sob fundamentos patriarcais. Trata-se de uma estrutura que, desde a infância, ensina meninos e homens a associar poder, respeito e masculinidade à imposição e, em muitos casos, à violência.
Nesse contexto, a mulher que desafia o lugar de submissão historicamente imposto torna-se alvo de reações que extrapolam o plano individual e alcançam o coletivo. Muitas vezes, essa resistência é reforçada por uma cultura que ainda não assimilou plenamente a importância da autonomia feminina.
Na sociedade contemporânea, os modelos patriarcais herdados seguem influenciando comportamentos. Ainda recai sobre as mulheres a responsabilidade quase exclusiva pelas tarefas domésticas e pelo cuidado com os filhos, sem o devido reconhecimento. Essa dinâmica é reforçada por uma educação sexista que perpetua papéis de gênero rígidos, dificultando a superação dessas estruturas (Ribeiro, 2024).
É nesse cenário que casos concretos escancaram a permanência dessa lógica de dominação. O feminicídio ocorrido no Espírito Santo, envolvendo um agente estatal e uma mulher em posição de liderança institucional, não pode ser interpretado como um episódio isolado.
Trata-se da expressão de um padrão estrutural de violência, no qual a autonomia feminina, especialmente quando associada à visibilidade e ao poder, é percebida como ameaça à masculinidade hegemônica. Como aponta Heleieth Saffioti, filósofo e sociólogo francês conhecido por sua teoria sobre a produção do espaço, a violência de gênero não é episódica, mas constitutiva das relações sociais de poder.
A compreensão desse fenômeno também passa pela análise das dinâmicas sociais e territoriais. Para Milton Santos, geógrafo brasileiro e um dos principais pensadores da geografia crítica, o espaço é resultado das relações sociais, o que permite entender como desigualdades se manifestam de forma concreta no cotidiano.
Na mesma linha, Henri Lefebvre evidencia que o espaço também reproduz opressões, incluindo as de gênero. Assim, a violência doméstica não se restringe ao ambiente privado, sendo atravessada por fatores sociais, institucionais e culturais.
A epistemologia feminista, campo crítico que examina como as relações de gênero e opressões estruturais influenciam a produção, aquisição e transmissão do conhecimento científico e social, representada por autoras como Donna Haraway, reforça a necessidade de reconhecer as experiências das mulheres como centrais para a compreensão e o enfrentamento da violência. Não se trata apenas de punir agressores, mas de desestruturar os mecanismos que naturalizam a violência como forma de poder.
O caso capixaba evidencia, ainda, a urgência de políticas públicas eficazes, de uma atuação institucional comprometida e da incorporação de uma perspectiva de gênero no sistema de Justiça. A repetição de episódios dessa natureza demonstra que a conquista formal de direitos não foi suficiente para transformar as bases estruturais da violência.
Enfrentar a violência contra a mulher exige uma mudança profunda. Significa romper com a lógica que autoriza o controle sobre a vida feminina, reconhecer que cada feminicídio representa um fracasso coletivo e reafirmar que não há democracia plena enquanto mulheres continuarem sendo mortas por exercerem sua liberdade.
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