Com o resultado das eleições do dia 30 de outubro, muitos em alto e bom som bradaram que a democracia venceu o fascismo. Concordo em parte. Convido todos e todas a mergulhar no significado dessa frase e compreender que a grande maioria que votou no candidato derrotado não alcançou o risco que corríamos, enquanto nação, e não é contra a democracia ou apoia o fascismo.
O resultado das eleições foi o primeiro passo para retornar o Brasil para o quadrante institucional de normalidade, afastando o risco das sandices de um grupo que, infelizmente, foi e ainda pode estar sendo usado por um “protolíder” do baixo clero.
A saída da Presidência do ainda presidente não é a garantia da eliminação do fenômeno do “bolsonarismo”, que difere do fascismo alemão, considerando as marcas coloniais que possui, e que estão tatuadas, imprimindo uma diferença ontológica. Mas não o difere em crueldade, perversidade e destruição.
As pessoas que aderem aos espectros de direita e esquerda, e que se uniram em uma frente ampla para fazer o enfrentamento a esse fenômeno, terão que manter ao lado suas diferenças, que são legítimas, e caminharem ladeadas, pois descobrimos, à duras penas, que essa é a nossa forma de proteger a democracia.
Isso importa em se aproximar e compreender, com compaixão e paciência, sem prescindir das responsabilizações cabíveis, os “bolsonaristas”, até que eles entendam que discordância não implica na eliminação do outro, que os direitos fundamentais são para todas as pessoas, que as diferenças fazem parte da vida e que todos merecem ser felizes.
E o mais importante de tudo, seguir um ideal político significa analisar a essência de um pensamento e ter compreensão epistemológica, o que é bem diferente de acreditar em informações sem lastro propagadas em “grupelhos” e tomar posicionamentos a partir do próprio umbigo, descartando a realidade que é coletiva.
Os resultados das eleições não resolvem, como em um passe de mágica, todos os problemas sociais, econômicos, ambientais, políticos e institucionais que temos, e que são próprios dos regimes democráticos, e que, diga-se de passagem, foram agudizados sob o comando do candidato derrotado, que deixa o cargo mais alto do país. Contudo, esse é o primeiro passo para, após ter noção do tamanho da terra arrasada, reconstruirmos esse país e cuidar de todas as pessoas, sem deixar ninguém no meio do caminho.
Imprescindível lembrar que o ideal de liberdade e democracia foram luz e oxigênio dos movimentos sociais, que foram resistência durante os últimos cinco anos. Encontrando estratégias e criando espaços de sobrevivência ao ódio e à intolerância.
Vale alertar que o ódio e a intolerância ainda vão permanecer em nossa sociedade, mas deverão ser enfrentados com diálogo fortalecido e sereno, com estabelecimento do contraditório, encontrando as saídas dentro da Constituição, que tem muito mais do que quatro linhas.
Isso tudo será necessário pois, como bem disse Bertolt Brecht na peça “A resistível Ascensão de Arturo UI”, no dramático contexto do nazismo na Alemanha em que o protagonista escancara a violência, a xenofobia e a intolerância como o passaporte para a alienação coletiva e valores individualistas, “a cadela do fascismo está sempre no cio”.
O medo, a intolerância, a insatisfação com sistemas políticos aliados com a ignorância e a sedução por promessas fáceis para solucionar problemas complexos aram o terreno para renascimento do fascismo, basta que a sociedade se descuide.
Sigamos de mãos dadas e em permanente estado de alerta.