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Pandemia

O que faremos após o exílio imposto pelo coronavírus?

Somos agora exilados em nossa própria vida e casa, os outros que não vivem esse exílio “glamurizado” já são degredados dentro do sistema e do orçamento, experimentando toda a ausência de acesso a direitos e serviços

Públicado em 

04 abr 2020 às 05:00
Verônica Bezerra

Colunista

Verônica Bezerra

Mulher olhando pela janela: nova rotina com coronavírus e isolamento
Mulher olhando pela janela: nova rotina com coronavírus e isolamento Crédito: Alexandre Chambon/Unsplash
Nas últimas semanas, vivemos uma espécie de exílio, que consiste em uma expatriação forçada ou por livre escolha. Ou um degredo, que por seu turno é mais apropriado para o momento vivente, dado que consiste em afastamento voluntário ou compulsório de um contexto social.
Desse exílio ou degredo, certamente, ninguém sairá indene. Cada um carregará suas marcas, uns mais outros menos. Até mesmo aqueles que postam que seu “exílio” transcorre de forma “tranquila”, com seus “home office” de alta produtividade. Vale lembrar que a maior parcela da população não tem estabilidade e nem condições de trabalhar de forma remota.
Somos agora exilados em nossa própria vida e casa, os outros que não vivem esse exílio “glamurizado” já são degredados dentro do sistema e do orçamento, experimentando toda a ausência de acesso a direitos e serviços.
Guardada as devidas proporções, experimentamos o cercear da liberdade devendo-se notar que é uma suspensão temporária do direito de ir e vir, mas responsável, para evitar um mal maior. É preciso pensar em todas as pessoas e, principalmente, no futuro, pois a condição para se ter futuro é ter vida. Mas também devemos lembrar que para aquela parcela da população que não tem “home office” ou “exílio” que se posta em redes sociais, a liberdade é artigo de luxo, pois vivem todos os dias sob os toques de recolher do medo e da incerteza, são exilados em seu próprio território.
Contudo, o que cabe hoje refletir, e o momento de exílio é propício para isso, é o que faremos do nosso degredo no dia seguinte ao seu fim? Isso é importante pois não é a primeira vez a humanidade passa por essa situação. Das outras vezes, foram enfrentadas de forma específicas, sendo duas delas bem retratadas em obras que merecem leitura por esses tempos.
As obras de dois autores renomados, um franco-argelino e outro italiano, respectivamente, Albert Camus com seu clássico “A peste” e Giovanni Boccaccio com “Decameron”, demonstram como as histórias se repetem, bem como os discursos das autoridades e a reação da população se assemelham, mesmo em um tempo tão distante.
Camus, com uma escrita que podemos classificar como belo recorte fino da alma humana, em meio a tragédia instalada na cidade argelina de Oran, que poderia ser qualquer cidade contemporânea, nos exorta que “impacientes com o presente, inimigos do passado e privados do futuro, parecíamo-nos assim efetivamente com aqueles que a justiça ou o ódio humano fazem viver atrás da grades”, e continua alertando que o “único meio de escapar a essas férias insuportáveis era, através da imaginação, realocar em movimentos os trens e encher as horas com os repetidos sons de uma campainha que, no entanto, se obstinava no silêncio”.
Que aprendamos lições sobre liberdade, e que no silêncio ensurdecedor do nosso exílio, saibamos construir as bases para o que seremos após o findar desse tempo que deve nos ensinar, pelo menos, a ser mais humano e compreender que a desigualdade em momentos como esse é esfregada na nossa face.

Verônica Bezerra

Advogada, coordenadora de Projetos CADH, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais (FDV) e especialista em Direitos Humanos e Segurança Pública

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