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Trabalho

O frio revela a desigualdade e inverte a lógica da cigarra e da formiga

A mensagem de que é preciso se preparar nos tempos bons para atravessar os tempos ruins é bom alvitre, se pudéssemos viver num sistema justo e equânime

Publicado em 09 de Agosto de 2021 às 02:00

Públicado em 

09 ago 2021 às 02:00
Verônica Bezerra

Colunista

Verônica Bezerra

O frio e a fome é uma preocupação constante para quem está em situação de rua
O frio e a fome é uma preocupação constante para quem está em situação de rua Crédito: Freepik
A chegada do inverno não traz somente um tempinho bom para se apreciar um fondue ou vinho, em locais bucólicos com neve caindo, por alguns dias e com agasalhos suficientes para se aquecer à beira de uma lareira. Para milhares de pessoas, o frio significa dor, medo, escassez e morte. Escusas aos que discordam, mas o frio é cruel para aqueles que não têm acesso mínimo a roupas, cobertores, comida quente e abrigo. Os pobres, mesmo trabalhando duramente no verão, sem direitos e sustentando-se à base de uma pirâmide violadora, morrem de frio no inverno.
Poderíamos recontar, pelo avesso e de forma contemporânea, uma fábula popular famosa, atribuída a Esopo, escritor da Grécia Antiga e pai do referido gênero literário, que, repaginada pelo francês Jean de La Fontaine, serviu de base para inúmeros escritores, entre eles Monteiro Lobato.
A fábula da cigarra e formiga hoje seria contada e compreendida de outra forma. Para Esopo, a cigarra canta durante o verão, enquanto as formigas trabalham visando acumular provisões para atravessarem o inverno. Chegando a estação do frio e ausência de alimentos, a cigarra pede às formigas um pouco de comida, sendo questionada sobre o que fizera durante o verão. Ao responder que cantara melodiosamente, as formigas mandam dançar no inverno, já que cantara no verão.
A mensagem de que é preciso se preparar nos tempos bons para atravessar os tempos ruins é de bom alvitre, se pudéssemos viver num sistema justo e equânime. Com o trabalho devidamente valorizado e os bens distribuídos de maneira a satisfazer as necessidades de todas as pessoas.
Entrementes, não vivemos em um sistema assim. Trabalhadores sem direitos são submetidos a condições violadoras. Empregos precários. Vínculos frágeis com relativização de direitos trabalhistas. A “pejotização” das relações de trabalho. A farsa do empreendedorismo. São fenômenos que acabam por desvelar uma relação de exploração em que aquele que oferta sua força de trabalho, a pessoa humana, é tratada como coisa; o capital como pessoa.
Atualizando para os dias de hoje, podemos pensar quantos trabalhadores se entregam à labuta diária, enfrentam temperaturas baixas e condições inadequadas de viver. Não há glamour num trabalhador que acorda as três horas da madrugada, debaixo de temperaturas negativas, para montar sua barraca em uma feira livre.
O frio revela desigualdade e inverte a lógica da fábula ilustrada. Com as condições de trabalho reduzidas, supressão de direitos e crise econômica que vivenciamos, as formigas de Esopo, mesmo trabalhando muito durante o verão, não conseguiriam acumular, de forma legítima, para fazer a travessia no inverno com o mínimo de conforto e aquecimento.
A grande injustiça nisso tudo é a cigarra que canta no verão e no inverno, por meio da exploração do trabalho e da vida de muitas formigas. Acumulam riquezas às custas de tanto sofrimento humano. Todo processo de acumulação de riqueza está calcado em grandes violações de direitos humanos. A base de toda estrutura de poder é composta por sofrimentos de pessoas que não desfrutam das conquistas. Esse sistema está equivocado, resta saber quando o revolver das estruturas acontecerá.

Verônica Bezerra

Advogada, coordenadora de Projetos CADH, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais (FDV) e especialista em Direitos Humanos e Seguranca Publica

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