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Política

O Brasil entre a condenação histórica e a sombra da anistia

A resposta virá das ruas, pois é lá onde a democracia respira, onde a cidadania pulsa, onde o futuro se constrói com coragem. Não há silêncio noturno forte o bastante para calar a força coletiva de um povo atento

Publicado em 22 de Setembro de 2025 às 04:15

Públicado em 

22 set 2025 às 04:15
Verônica Bezerra

Colunista

Verônica Bezerra Verônica Bezerra
No eco de uma noite inquieta, no dia seguinte à condenação histórica de militares de alto escalão, o Brasil se vê mergulhado em uma atmosfera de tensão e perplexidade. Enquanto as manchetes celebram um marco judicial, nas profundezas silenciosas da noite, movimentos discretos ganham vida, articulando uma possível anistia para aqueles que desafiaram o Estado Democrático de Direito. É como se, nas entrelinhas do poder, operassem engrenagens invisíveis, movidas pelo desejo de perpetuar privilégios e apagar rastros de ações que feriram a República.
Entre os privilégios e loucuras de uma elite política, vemos uma classe repleta de contradições e incapaz de lidar com a pluralidade que compõe o tecido social brasileiro. Em vez de construir pontes, busca erguer muros e proteger interesses próprios, ignorando o chamado da história para a reconciliação e o respeito às diferenças. O desejo de garantir privilégios e manter intactas estruturas de poder ultrapassadas conduz a ações que desafiam o espírito democrático e fomentam a impunidade.
A impunidade, como uma sombra persistente, se espalha pelas veredas institucionais, corroendo a confiança da sociedade nas promessas de justiça e igualdade. O país, incapaz de se reconciliar com seus traumas, vê o passado violador ranger aos pés do presente, impedindo a paz social de se estabelecer de forma duradoura. Os ecos de outrora, longe de serem silenciados, ressurgem sempre que se tenta varrer para debaixo do tapete as histórias de abusos e atropelos à democracia.
O Brasil tem dificuldade em conviver com a memória. Viver em paz, para o Brasil, exige mais do que o esquecimento: requer coragem para enfrentar os fantasmas da própria história, assumir erros e promover reparação. A insistência em anistiar, sem reflexão profunda, perpetua os ciclos de violência institucional e desconfiança coletiva. Sem o reconhecimento dos horrores do passado, o país permanece prisioneiro de suas próprias contradições, incapaz de transcender as cicatrizes que o dividem.
E, assim, o povo vai cambaleando entre a esperança e o desencanto, diante de noites sombrias e de movimentos que ameaçam a integridade democrática, há quem insista em acreditar no poder transformador da memória, da verdade e da justiça. O futuro do Brasil depende da disposição de seus indivíduos em romper com velhos padrões, acolher as diferenças e construir uma sociedade que celebre a pluralidade. Só assim será possível, enfim, silenciar os ruídos do passado e abrir caminho para a paz tão almejada.
Quando a anistia é forjada nos bastidores, à margem da luz do dia, sob o véu de uma madrugada obscura, ela não traz consigo o frescor da justiça, mas sim o peso da desconfiança. Em cada decisão tomada longe do olhar público, cresce o eco do inconformismo, multiplica-se, como semente lançada ao vento, o desejo de reação.
Plenário da Câmera dos Deputados durante votação da PEC da Blindagem
Plenário da Câmera dos Deputados durante votação da PEC da Blindagem Crédito: Lula Marques/Agência Brasil
As ruas são mais que concreto e asfalto. São espaço de memória, palco de luta, abrigo de vozes que se recusam a ser silenciadas pelo compasso apressado dos conchavos. Cada passo dado por quem não aceita o esquecimento imposto é um grito que rompe a quietude conveniente dos gabinetes fechados.
A madrugada pode esconder a caneta que escreve leis injustas, pode disfarçar acordos feitos entre sombras, mas não apaga o sol do dia seguinte. E é à luz desse sol que emerge a resposta: multidões ocupam os espaços públicos, erguidos em indignação e esperança, desafiando os que acreditam que a história se faz apenas de portas fechadas.
A resposta virá das ruas, pois é lá onde a democracia respira, onde a cidadania pulsa, onde o futuro se constrói com coragem. Não há silêncio noturno forte o bastante para calar a força coletiva de um povo atento. Que se lembre: toda anistia sem diálogo e sem verdade é apenas o prenúncio de novas jornadas de resistência. E, dessa vez, será à luz do dia, com o país inteiro como testemunha, que se escreverá o próximo capítulo.

Verônica Bezerra

Verônica Bezerra Verônica Bezerra

É advogada, doutoranda em Ciências Sociais, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais, especialista em Direitos Humanos e Segurança Pública

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