O surgimento das emoções e dos sentimentos é exatamente o momento em que surge o ser humano. Impossível dissociar sentimentos e emoções da pessoa humana.
Ambos, emoções e sentimentos, embora confundidos muitas vezes, são processo psicológicos diferentes. As emoções são reações instantâneas e fisiológicas a estímulos, como medo, raiva ou alegria, como respostas automáticas a estímulos, acompanhadas, em algumas vezes, de alterações fisiológicas, como aumento da frequência cardíaca ou suor. Já os sentimentos são interpretações conscientes e duradouras das emoções, envolvendo processos cognitivos: são como interpretamos e damos significado às nossas emoções.
As emoções podem desencadear sentimentos, e os sentimentos podem, por sua vez, influenciar as emoções. Compreender essas diferenças pode ajudar a lidar melhor as nossas próprias reações emocionais e de outras pessoas, considerando que sentimentos e emoções são relacionais, e envolve, obrigatoriamente, um outro ser humano.
Mas como ficam emoções e sentimentos quando o outro é uma máquina?
O desenvolvimento tecnológico mudou nossa relação com o mundo, com os outros e conosco. A era digital, com a promessa de facilitaria a vida cotidiana, foi invadindo nossa vida material, e de maneira estranha nossa vida imaterial, chegando ao ponto de pessoas se apaixonarem por programas de computador.
A colonização digital que vivemos não se resume à expropriação de dados, concentração de poder e distribuição desigual da violência própria ao desenvolvimento tecnológico capitalista, mas é também uma colonização da forma pela qual a interação humana tem acontecido em um mundo cada vez mais mediado por tecnologias automatizadas.
O que pode parecer formidável, à primeira hora, pois poderia tornar uma experiência confortável, considerando que o outro com quem se relaciona não é humano — de certa forma, a IA poderia cumprir a função social de um “amigo imaginário real” ou de um “amor virtual” que não confronta ou reage de forma inusitada —, não contava com um elemento: a IA não arquiva a memória dos comandos de sentimentos e, portanto, não retribui afetos.
As máquinas produzem relações confortáveis pois sofrem de Alzheimer algorítmico, não guardam memória e, portanto, são incapazes de construir histórias, que é a base relacional da vida.
O indivíduo é incontornavelmente dividido, precisando lidar, diariamente, com suas faltas, pois é assim que nasce o sujeito, de acordo com a psicanálise. Busca-se, de forma insaciável e inglória, sanar faltas atualizando fantasias de reconstituição do acolhimento “materno”, ao passo que nos impele ao mundo e ao outro.
A vida sempre nos escapa ao controle, e nesse compasso nos movemos, crescemos e vamos bailando entre frustrações. E nessa delícia, ao mesmo tempo, extremamente arriscada, quando encontramos alguém disposto a gingar o jogo incerto da vida conosco, num jogo enigmático, chamamos de amor, e projetamos o melhor e o pior de nós no outro.
Amamos quem nos provoca, mas sobretudo, quem nos escuta, valoriza, entende e nos devolve, de alguma forma, algo de nós.
Pessoas usam agentes de IA para aconselhamento psicológico e relacionamentos afetivos. Já que se permite nesse mundo bloquear, excluir e evitar o que nos desafia, irrita ou contraria, nos parece confortável a compensação, por iniciativa do algoritmo, visto que já estamos colonizados por ele.
Essa atitude nos leva a uma dissonância cognitiva e a uma subjetividade pouco afeita à frustração e ao contraditório. Só vemos aquilo que é confortável e repudiamos, em manada, qualquer desconforto que apareça.
No entanto, na vida presencial familiar, profissional, política, afetiva, frequentemente, temos que conviver e negociar com pessoas que não são completamente como gostaríamos. Relações não são confortáveis, mas são algo que nos completam, pois nos desafiam. E isso somente um ser humano pode provocar no outro, jamais uma máquina.