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Saúde mental

Como acolher a dor antes que ela se transforme em tragédia

É preciso refletir sobre como uma sociedade que exige saúde mental impecável de seus membros contribui para o silenciamento, responsabilizando-os apenas após a tragédia consumada

Públicado em 

08 dez 2025 às 03:15
Verônica Bezerra

Colunista

Verônica Bezerra

Nos últimos anos, o Brasil foi abalado por episódios de profunda dor e perplexidade tendo como protagonistas adolescentes-jovens: o massacre na escola em Aracruz (ES), ocorrido em novembro de 2022, e, mais recentemente, a morte de um menino atacado por uma leoa ao adentrar uma jaula são exemplos, mas pelo Brasil afora temos outros.
Embora distintos em suas circunstâncias e produção de vítimas, ambos os casos expõem fissuras profundas em nossa sociedade, especialmente no que diz respeito ao silenciamento do sofrimento psíquico de jovens e à responsabilidade das instituições em identificar e acolher sinais de vulnerabilidade.
Bem como, no caso de Aracruz, a responsabilidade objetiva daqueles que propagam a política do ódio e facilitação de acesso a armamento, combinado com as questões subjetivas, constroem-se as condições adequadas para proliferação de atitudes extremadas e irreversíveis.
Gerson de Melo Machado foi morto por uma leoa em zoológico
Gerson de Melo Machado foi morto por uma leoa em zoológico Crédito: Reprodução/g1 PB/Redes Sociais
Diante desses acontecimentos, urge refletir sobre como uma sociedade que exige saúde mental impecável de seus membros contribui para o silenciamento, responsabilizando-os apenas após a tragédia consumada.
Vivemos em um tempo marcado por discursos de aparente abertura, onde saúde mental tornou-se pauta constante em redes sociais, programas de televisão e campanhas institucionais. Entretanto, sob esse barulho, persiste um silenciamento sutil e cruel: espera-se dos indivíduos, sobretudo dos jovens, uma resiliência quase sobre-humana diante das pressões cotidianas. Os que não correspondem a essa expectativa são, muitas vezes, invisibilizados ou rotulados como “problemáticos”, “frágeis” ou “desajustados”.
O massacre de Aracruz, perpetrado por um jovem que, segundo relatos, apresentava sinais de sofrimento psíquico não reconhecidos, e a trágica morte do menino que entrou na jaula de uma leoa evidenciam não apenas falhas individuais, mas, sobretudo, o resultado de um ambiente social que pouco escuta e muito exige. O medo do julgamento, o estigma e a falta de espaços de acolhimento real reforçam o isolamento e impedem que o sofrimento seja expresso antes que se transforme em desastre.
Escolas, famílias, serviços de saúde e outras instituições sociais têm papel fundamental na identificação e acolhimento do sofrimento emocional. Contudo, frequentemente, essas instâncias estão mais preparadas para punir do que para escutar. Falta formação adequada para lidar com questões de saúde mental, e há uma tendência a delegar a responsabilidade para o próprio jovem ou sua família, ignorando o contexto mais amplo de vulnerabilidade.
No caso de Aracruz, relatos apontam que o jovem agressor apresentava comportamentos preocupantes que foram negligenciados ou minimizados. De modo semelhante, o episódio envolvendo a leoa revela a ausência de barreiras protetivas, de diálogo e de acompanhamento adequado, evidenciando omissões institucionais que contribuem para o desfecho trágico.
A resposta social e institucional, não raro, só vem após o desastre. A “sociedade da consequência” caracteriza-se por sua inércia diante de sinais prévios e por sua prontidão para buscar culpados quando o irreparável ocorre. O debate público se concentra na punição, na busca de responsáveis imediatos e no recrudescimento de normas disciplinares, sem enfrentar as causas estruturais do sofrimento e da exclusão.
Esse padrão reativo alimenta um ciclo perverso: não se previne, não se escuta, não se cuida, e, quando a tragédia explode, redobram-se as exigências de controle e penalização, somente sobre os jovens, perpetuando o silenciamento e afastando ainda mais os que precisam de ajuda.
O recrudescimento das punições, no ambiente escolar ou no âmbito legal, não resolve a questão central: a necessidade de espaços de escuta, acolhimento e cuidado contínuo. É fundamental investir em políticas públicas que promovam a saúde mental nas escolas, na formação de educadores e na construção de redes de apoio que envolvam famílias, comunidade e serviços especializados.
Mais do que protocolos de segurança, precisamos de ambientes onde o sofrimento possa ser nomeado, reconhecido e trabalhado sem medo de estigmas. A escuta ativa, o diálogo aberto e a valorização da subjetividade são caminhos para prevenir tragédias e construir uma sociedade mais justa e menos punitiva.
Os episódios de Aracruz e da morte do menino pela leoa não são fatalidades isoladas, mas sintomas de uma sociedade que silencia o sofrimento e reage apenas diante do desastre. Superar a “sociedade da consequência” exige romper com o ciclo de invisibilização e responsabilização tardia, apostando em educação, cuidado e escuta ativa como alternativas à simples penalização. É um chamado à ação para educadores, psicólogos, famílias e toda a sociedade civil, para que possamos enxergar e acolher a dor antes que ela se transforme em tragédia.

Verônica Bezerra

Advogada, coordenadora de Projetos CADH, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais (FDV) e especialista em Direitos Humanos e Segurança Pública

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