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Carnaval: o direito à alegria é fundamental para a sociedade

A alegria não deve ser entendida apenas como um estado emocional passageiro, mas como bem-estar social, capaz de fortalecer os laços entre os indivíduos, promover a inclusão social e contribuir significativamente para a saúde mental da população

Publicado em 09 de Fevereiro de 2026 às 03:00

Públicado em 

09 fev 2026 às 03:00
Verônica Bezerra

Colunista

Verônica Bezerra

O carnaval é reconhecido como uma das maiores manifestações culturais brasileiras, sendo palco para a criatividade, diversidade e espontaneidade que caracterizam o povo. Muito além de uma simples festa, o carnaval estabelece-se como um espaço privilegiado de encontro e expressão coletiva, onde a resistência cultural se manifesta em cada detalhe. Nesse cenário, pessoas de diferentes origens e trajetórias unem-se para celebrar a vida, transformando as ruas em ambientes de partilha e convívio.
Inserido nesse contexto, o direito à alegria revela-se fundamental para a sociedade. A alegria não deve ser entendida apenas como um estado emocional passageiro, mas sim como um verdadeiro bem-estar social, capaz de fortalecer os laços entre os indivíduos, promover a inclusão social e contribuir significativamente para a saúde mental da população.
Assim, o carnaval ultrapassa a esfera do entretenimento, convertendo-se numa celebração do direito de ser feliz e de ocupar os espaços públicos com liberdade e respeito mútuo.
Garantir o acesso ao carnaval é, acima de tudo, promover a cidadania. Reconhecer a festa popular como um patrimônio imaterial significa compreender o seu papel na afirmação de identidades e na valorização da cultura. O direito à alegria, vivido de forma coletiva, reforça a necessidade de políticas públicas que reconheçam e valorizem a cultura popular, respeitando o desejo legítimo do povo de experienciar momentos de felicidade partilhada e genuína.
O bailar da Colombina e do Pierrô, tradicionais personagens do carnaval brasileiro, pode ser reinterpretado à luz das discussões sobre acesso aos direitos fundamentais, especialmente no contexto das periferias urbanas.
Podemos imaginar uma Colombina periférica, que ressignifica sua máscara não como símbolo de fuga, mas como escudo de resistência diante das adversidades sociais. Ela dança, mas também reivindica, trazendo à avenida as vozes apagadas das mulheres de sua comunidade, em uma sociedade que ainda é machista e misógina.
Bloco Afro Kizomba é o primeiro bloco 'afro' do Carnaval de rua de Vitória
Carnaval de rua de Vitória Crédito: Ricardo Medeiros
Já o Pierrô periférico, com lágrimas não apenas de amor, mas de indignação, transforma seu sofrimento em luta coletiva. Ele utiliza o palco do carnaval para denunciar violações de direitos, exigir acesso à saúde, educação e moradia digna, e para celebrar conquistas populares.
Juntos, Colombina e Pierrô, encenam um carnaval que não é apenas festa, mas também manifesto pela cidadania plena, onde brincar é, sobretudo, um ato político de afirmação e esperança. Carnaval enquanto política pública e direito, para cumprir duas funções: a primeira, de ser um respiro e promover saúde mental; a segunda, de ser canal de denúncia das mazelas humanas e sociais.
E que venha o carnaval, não só porque a gente gosta, mas porque a gente precisa.

Verônica Bezerra

Advogada, coordenadora de Projetos CADH, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais (FDV) e especialista em Direitos Humanos e Seguranca Publica

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