O que leva uma pessoa a se autoexterminar? Essa é a pergunta que povoa os pensamentos de milhares de pessoas que tentam compreender uma ação tão radical que interrompe uma vida e causa tanta dor naqueles que estão ao entorno.
O autoextermínio, no Brasil, é punido para aqueles que incitem e auxiliem a sua realização, não sendo permitida a sua realização assistida.
Cercado por questões éticas e morais, a prática de denotado caráter proibitivo pela formação cristã que se encontra na matriz do Estado e sociedade brasileiros ainda é assunto de difícil abordagem.
No Brasil, a taxa de suicídio entre jovens cresceu 6%, na última década. Como também houve um aumento de 29% nas taxas de notificações por autolesões na faixa etária de 10 a 24, no mesmo período, de acordo com o estudo recente na The Lancet Regional Health – Américas, realizado pelo Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde, da Fiocruz Bahia, em colaboração com pesquisadores de Harvard.
Apesar da redução de 36% no número de suicídios em escala global, as Américas fizeram o caminho inverso. No período entre os anos 2000 e 2019, a região teve aumento de 17% nos casos. Nesse período, o número de casos no Brasil subiu 43%. Em relação aos casos de autolesões no Brasil, a pesquisa do Cidacs/Fiocruz constatou que, em 2022, houve aumento das taxas de notificação em grupos de todas as faixas etárias, desde os 10 aos mais de 60 anos de idade.
A pesquisa também avaliou dentro desse período os números de suicídios e autolesões em relação a raça e etnia no país. Enquanto há um aumento anual das taxas de notificação por essas lesões autoprovocadas em todas as categorias analisadas – indígenas, pardos, descendentes de asiáticos, negros e brancos – o número de notificações é maior entre a população indígena, com mais de 100 casos a cada 100 mil pessoas.
“Mesmo com maior número de notificações, a população indígena apresentou as menores taxas de hospitalização. Esse é um indício forte de que existem barreiras no acesso que essa população tem aos serviços de urgência e emergência. Existem diferenças entre a demanda de leitos nos hospitais e quem realmente consegue acessá-los, e isso pode resultar em atrasos nas intervenções”, afirma a pesquisa.
Esforços são envidados, no Brasil, por várias áreas, para evitar que uma pessoa se autoextermine, numa busca em compreender as razões que pavimentam o caminho até o último ato. No entanto, existem lugares em que o suicídio assistido é legalizado, como é caso da Suíça, em determinadas circunstâncias.
Recentemente, uma invenção, batizada como Sarco, tem causado polêmica no país europeu. Trata-se de uma cápsula de aspecto futurista, que remete a sarcófago, projetada para as pessoas se autoexterminarem, por meio do acionamento de um botão que libera nitrogênio.
Tido pelos seus criadores como um espaço seguro para morrer pacificamente, após o interessado passar por um processo que inclui uma avaliação psiquiátrica, entrar na cápsula, responder as perguntas e acionar o botão, tudo a um custo de 18 francos suíços ou 108 reais.
Previsto para iniciar suas atividades ainda este ano, o dispositivo de pôr fim à vida de pessoas tem suscitado uma série de questões legais e éticas, que enquadram a humanidade diante de sua essência e de questões existenciais.
A falta de compreensão sobre a vida e o viver vem sendo a causa da grande crise de humanidade que atravessamos hoje. Compreender-se finito por meio de um processo que precisa ser naturalizado e tendo o respeito ao tempo é necessário para que as pessoas parem de querer brincar de Deus, tentando fazer o tempo parar ou apressando ele.
Preocupar-se demasiadamente com a chegada ao fim leva a não desfrutar do caminho, com todas as suas questões, tanto boas quanto ruins.
Prazer e dor; sorrisos e choro; alegria e tristeza: tudo precisa coexistir, pois tudo é necessário para nos sentirmos vivos.
Morrer pacificamente prescinde do viver abundante. Viver abundantemente prescinde da satisfação de aspectos subjetivos e objetivos da vida biopolítica.