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Brasil vive fenômeno da precariedade da vida de corpos mais vulneráveis

A primavera se preparava para invadir a vida de Ágatha, mas chegou atrasada. O futuro da menina foi interceptado por doses de liga de chumbo detonada por uma espoleta

Publicado em 05/10/2019 às 05h00
Atualizado em 05/10/2019 às 05h01
Ágatha Félix, 8 anos, morta com um tiro nas costas, no Rio de Janeiro. Crédito: Divulgação
Ágatha Félix, 8 anos, morta com um tiro nas costas, no Rio de Janeiro. Crédito: Divulgação

No dia 20 de setembro de 2019, o Rio de Janeiro foi palco de mais um “episódio”, que podemos nomear de “extermínio de futuros”. Poderíamos eleger outros “episódios” dessa natureza, mas hoje ficaremos com a história da menina Ágatha Félix, de apenas oito anos, atingida nas costas, enquanto estava dentro de um veículo, durante uma operação policial no Complexo do Alemão. De acordo com o Fogo Cruzado, o laboratório de dados sobre violência, a morte da menina ocorreu pelo fato da mesma ter sido atingida por um tiro de fuzil, no momento em que voltava para casa com sua família. Indica o laboratório de dados que este fora o 16º “episódio” em que uma criança foi baleada no Rio de Janeiro, apenas este ano.

Há um fenômeno de cruzamento permanente da precariedade da vida que torna alguns “corpos” mais vulneráveis. A esse fenômeno, Achille Mbembe descreveu como a “necropolítica”, que para ele consiste em políticas de morte para o controle das populações. Mbembe se inspira em Michel Foucault, quando este, em 1976, lançou a ideia de como o racismo de Estado seria uma das táticas do Biopoder e da Biopolítica. Entre o poder de “fazer viver e deixar morrer”, o racismo de Estado determinaria as condições de aceitabilidade para quem vive e morre. Mbembe supera o pensamento de Foucault, demonstrando como o Biopoder é insuficiente para compreender as relações de inimizade e perseguição contemporâneas, pois há uma “necropolítica” em curso para produzir os “mundos de morte”.

Mbembe parte do pressuposto de que a expressão máxima da soberania reside em grande medida, no poder e na capacidade, de ditar quem pode viver e quem deve morrer, razão pela qual matar ou deixar viver constituem os limites da soberania, seus atributos fundamentais. No seu entendimento, ser soberano é exercer controle sobre a mortalidade e definir a vida como a implantação e manifestação de poder. Neste sentido, a soberania seria a capacidade de definir quem importa e quem não importa, quem é "descartável" e quem não é.

Essa política de morte, a cada dia vem provocando o que chamamos de “extermínio de futuros”, que de maneira certeira atinge os mesmos, e nos mesmos lugares. Isso não é coincidência. Pelo contrário, compõe um modus operandi revestido de perversidade, tão potente e refinado, que até mesmo as peças da “grande engrenagem” não se dão conta disso, e ainda justificam e fundamentam as “ações” que têm como consequência “episódios” como esses.

A primavera se preparava para invadir a vida de Ágatha, mas chegou atrasada. O futuro da menina foi interceptado por doses de liga de chumbo, arremessadas à frente, detonada por uma espoleta, que ao queimar o propelente e passando pelo cano de uma arma, atingiu o tenro corpo negro de uma menina.

Perguntar-me-ão se essa descrição é a “necropolítica”. Responderei que não. A descrição é somente o “ato final” de um roteiro, que é consequência de uma decisão que fora tomada bem distante dos lugares onde os corpos “descartáveis” tombam, e por “outros atores” que não sentem nem o “cheiro da dor”, como produto de uma política perigosa de “exterminação de futuros”, mas somente de alguns futuros.

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