Vivemos atualmente uma crise humanitária em que milhões de pessoas morrem de fome e precisam de cuidados; em contrapartida de outras pessoas que adotam bonecos para cuidar como se filhos fossem. Um dissenso existencial que tem demandado absurdamente sistemas e mecanismos, e despertado preocupação de especialista em saúde mental.
Os chamados “bebês reborn” viraram uma mania, nada sadia, entre pessoas que compram ou “adotam” bonecos realistas e passam a estabelecer uma relação de concepção real.
Referimo-nos a bonecos realistas feitos à mão com muita semelhança com bebês reais, pois possuem detalhes hiperrealistas, cabelos implantados, olhos de vidro e pele macia. Produzidos com materiais como silicone e vinil, por meio de um processo complexo e demorado, sendo que algumas artistas até simulam o parto desses bebês, com placenta e líquido amniótico sintético. Originários dos EUA, na década de 1990, são criados por artesãs, chamadas de "cegonhas".
De acordo com o senso do IBGE de 2022, a taxa de casais que não querem ter filhos em 25 anos subiu de 13% para 19%, baseada em diversas razões, dentre elas a questão dos recursos financeiros e a inexistência de uma rede de apoio, mas também, de forma não declarada, a dificuldade de hoje em dia de exercer a partilha e a comunhão, o que fundamenta uma sociedade de características individualistas.
Nesta esteira, chama atenção as pessoas que querem ser “pais”, mas não querem um compromisso com uma criança de verdade. De acordo com alguns especialistas em comportamento humano, entre elas Gisele Hedler: “existem fragilidades emocionais associadas ao substituir o cuidado de 'filhos reais' por bonecos ultrarrealistas. Mulheres que agem dessa maneira para suprir necessidades emocionais profundas, como luto não resolvido, desejo de maternidade não realizado ou carências afetivas.”
Como se não bastasse o festival de insanidades, no início deste mês, foi aprovado um projeto de lei que inclui o Dia da Cegonha Reborn no calendário da cidade do Rio de Janeiro, com o objetivo em homenagear as artesãs que confeccionam os bebês, mais conhecidas como “arte das cegonhas”.
A concepção, gestação e educação de uma pessoa, passa por processos que são, obrigatoriamente, uma via de mão dupla. Quando nasce um filho, nasce uma mãe e um pai, que vão tentando se constituir enquanto comunidade familiar, em um processo que envolve emoções, ganhos e perdas.
A relação com o outro sempre é desafiadora, desde de que humano seja, pois não há controle sobre o outro. Quando se estabelece uma relação com um “pseudo-outro”, considerando que o outro é um objeto que não desagrada, não reage, não pede e não espera, propõe-se algo não previsto e denuncia a loucura de uma humanidade que consegue cavar ainda mais o fundo do poço, deixando explícito que o nível de individualismo se encontra em níveis estratosféricos e o desejo de que o outro seja uma coisa e não uma pessoa.