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Mobilidade

Vamos andar? É hora de estimular os deslocamentos a pé nas cidades

Atualmente temos visto muito foco apenas na bicicleta, com a implantação de ciclovias, ciclofaixas e ciclorrotas em diversas cidades, enquanto quase nada se vê em termos de política pública para o simples andar a pé

Publicado em 19 de Agosto de 2021 às 02:00

Públicado em 

19 ago 2021 às 02:00
Tarcísio Bahia

Colunista

Tarcísio Bahia

Frio muda paisagens na Grande Vitória. Pedestre tentam se proteger do frio. Av. Reta da Penha, Vitória.
Pedestres na Av. Reta da Penha: ideia é criar incentivos e condições para que as pessoas cada vez se desloquem mais através da caminhada Crédito: Rodrigo Gavini
“Ando devagar / Porque já tive pressa / E levo esse sorriso / Porque já chorei demais” (“Tocando em frente”, Almir Sater e Renato Teixeira)
Conforme nos lembrou o arquiteto italiano Francesco Careri em seu livro “Walkscapes, o caminhar como prática estética”, já no início de tudo, Caim e Abel, o primeiro agricultor e o segundo pastor, personificaram a divisão dos primeiros agrupamentos humanos entre os sedentários e os nômades. Nômade é quem, não se prendendo a nenhum lugar, está constantemente deslocando-se pelo território, fazendo da caminhada um ato constante da sua existência.
Mas, como diz o subtítulo do livro, Careri interessa-se pelo aspecto estético da ação de caminhar, discorrendo assim por artistas como foram os surrealistas, liderados por André Breton, ou os situacionistas décadas depois, que buscaram no andar pelas ruas das cidades a experiência poética capaz de enfrentar a realidade da vida urbana.
Contudo, na sua incessante busca por conforto, o homem cada vez tem andado menos. De fato, se podemos ir de escada rolante ou elevador, ninguém preferirá outro caminho que demande algum esforço físico. Mas entra em jogo também a questão da velocidade, pois as pessoas não querem apenas conforto, sendo o tempo um importante componente da vida cotidiana atual.
Assim, artefatos como são os veículos automotores, entre eles o automóvel e a motocicleta, ganharam significativa relevância para a população tanto urbana quanto rural. Ao contrário de Abel, nos dias atuais, em muitas fazendas brasileiras, já há até pastores conduzindo gado montados em motos!
Se o termo sedentário pode ser usado para definir aqueles povos do passado que tinham como hábito fixar-se num determinado lugar no território, o que deu origem às primeiras vilas e depois às cidades, hoje ele também se refere às pessoas que pouco realizam atividades físicas, ao contrário do que recomenda a medicina. A preguiça é altamente indicada para compensar o cansaço físico e mental, não podendo, porém, ser regra na vida das pessoas.
E se o esporte não é moda, ainda mais em tempos de pós-Olimpíadas, é certo que no dia a dia muita gente prefere o sedentarismo, seja usando como argumento a falta de tempo, seja por uma simples decisão pessoal, preferindo levar uma vida mais “confortável”, sem nenhum tipo de esforço físico.
Um dos conceitos atuais defendido por muitos urbanistas é o de mobilidade ativa, e que se contrapõe ao de mobilidade motorizada, baseada no deslocamento das pessoas em veículos, sejam eles individualizados e particulares, como são os carros e motos, sejam coletivos e públicos, como são o ônibus, trem ou metrô, entre outros.
Trata-se de uma mudança de paradigma. A ideia é criar incentivos e condições para que as pessoas cada vez se desloquem mais através da caminhada ou em bicicleta nas suas atividades cotidianas, como ir ao trabalho, à escola, ao médico ou para fazer (pequenas) compras. Também se poderia incluir na mobilidade ativa os patins e o skate, mas eles estão no momento mais atrelados ao esporte e lazer.
A questão é que atualmente temos visto muito foco apenas na bicicleta, que vai desde a implantação de ciclovias, ciclofaixas e ciclorrotas em diversas cidades, passando pelos subsídios econômicos que reduz o valor para quem quer comprar uma bicicleta nova, enquanto quase nada se vê em termos de política pública para o simples andar a pé.
Contudo, pesquisas origem-destino em várias cidades brasileiras revelam que o maior percentual de deslocamentos das pessoas no meio urbano é realizado a pé, superando até mesmo as viagens em ônibus.
Ocorre que neste Brasil socialmente injusto, muita gente se vê obrigada a caminhar simplesmente porque nem sequer consegue pagar a passagem de transporte público. Mas além deles, no grupo das pessoas que andam a pé, pode-se incluir desde idosos ou estudantes que, respectivamente, vão à padaria ou à escola do bairro caminhando.
Diante desse quadro, é certo afirmar que o espaço prioritário de mobilidade em qualquer centro urbano é a calçada.
A nova cidade, pós-pandemia, preocupada não só com o aquecimento global, mas o meio ambiente em geral e com cidadãos mais conscientes e ativos, provocará uma transmutação na sua organização espacial. Morar perto do trabalho, ou morar e trabalhar no mesmo local, bem como realizar suas atividades cotidianas na vizinhança, implicará em mais pessoas deslocando-se a pé, fazendo deste momento algo tão útil quanto prazeroso, e quem sabe até mesmo uma experiência estética.

Tarcísio Bahia

Arquiteto, professor da Ufes e diretor do IAB/ES. Cidades, inovacao e mobilidade urbana tem destaque neste espaco

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