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Urbanismo

Quando a pandemia passar, cidades terão a chance de se transformar

Tragédia sanitária está impondo revisões das administrações municipais em relação ao espaço urbano, com mudanças nos sistemas viário e de transporte, nas áreas livres e no zoneamento

Publicado em 12 de Agosto de 2021 às 02:00

Públicado em 

12 ago 2021 às 02:00
Tarcísio Bahia

Colunista

Tarcísio Bahia

Paris, capital da França
Uma ideia que vem ganhando força vem de Paris, que sediará as próximas Olimpíadas, com o projeto “cidade de 15 minutos”, que leva ao tema do zoneamento Crédito: Divulgação
Covid-19, a despeito de tantas dores e sofrimento causados a milhões de pessoas em todo o mundo, provocou diversas mudanças no comportamento de cada cidadão, muitas das quais, passada a agonia de quem tem conseguido sobreviver, poderão ser vistas como positivas num breve futuro.
Pode-se dizer, portanto, que a pandemia trouxe oportunidades de inflexão no modo de vida daqueles que tiveram a chance de pôr em prática ideias que antes pareciam ser apenas meras divagações, sonhos inalcançáveis, devaneios, utopias, como, por exemplo, morar longe da cidade grande, afastado do estresse urbano, dedicar-se mais à família, trabalhar a distância, entre outras mudanças no modo de vida.
Mas, além das pessoas, quem também está tendo a chance de passar por transformações, alterando suas estruturas e sua dinâmica, é a cidade. Ao preço de muitas vidas, a tragédia sanitária está impondo uma série de revisões das administrações municipais em relação ao espaço urbano, que vão desde os sistemas viário e de transporte; passando pelos espaços livres, como parques, praças e jardins; assim como no zoneamento, que define quais atividades são permitidas ou toleradas em cada parte da cidade.
Desde o início das pandemias, diversas cidades em todo o mundo resolveram ampliar suas redes cicloviárias, visando melhorar as condições de deslocamento da população em bicicletas, já que o transporte público de massa passou a ser um vetor de contaminação viral. Vias nas quais antes passavam automóveis e ônibus, foram bloqueadas para implantação de ciclovias emergenciais e que logo se tornaram permanentes.
De Buenos Aires a Bogotá, passando por São Paulo, além de Nova York e Paris, a crise pandêmica deu chance para que mais pessoas fizessem das bicicletas seu meio de transporte, algo que já era defendido por muitos pesquisadores e gestores urbanos, haja vista os benefícios para a saúde, para o combate ao aquecimento global (em função da diminuição dos gases emitidos pelos veículos automotores), para a redução dos acidentes de trânsito, enfim, para fazer da cidade contemporânea um ambiente menos hostil quando comparado com aquele lugar urbano priorizado para os automóveis, tal como era a cidade pré-pandemia.
Não obstante, mesmo com a expansão da rede cicloviária, muitas cidades não viram uma significativa redução da circulação dos carros de passeio, uma vez que muitos passageiros simplesmente migraram do transporte coletivo para os veículos de aplicativos.
É uma equação difícil de resolver, pois o número de passageiros no transporte público de massa vem encolhendo, tornando sua operação cada vez mais onerosa para aqueles que ali permaneceram, ou seja, para quem não pôde fazer da bicicleta ou do carro de aplicativo seu meio de transporte diário.

REPLANEJAMENTO NECESSÁRIO

Bom seria se as administrações municipais aproveitassem o momento para replanejar não só o sistema viário e de transporte, mas a lógica da mobilidade urbana das suas cidades. As restrições ao uso do carro particular em certas partes das cidades, antes um tema polêmico e evitado por muitas prefeituras, podem agora ser uma boa estratégia.
É certo que para implantar restrições para circulação de veículos nas áreas centrais, como fez Londres – com o pedágio urbano – ou Madri – com a proibição de veículos poluentes – é preciso oferecer alternativas aos cidadãos, seja para não precisar ir às regiões centrais, seja para lá poder ir, porém sem precisar recorrer ao carro próprio.
Uma ideia que vem ganhando força vem de Paris, que sediará as próximas Olimpíadas, com o projeto “cidade de 15 minutos”, que leva ao tema do zoneamento. Neste caso, as cidades deverão oferecer em todas as suas zonas de bairros infraestruturas acessíveis aos seus cidadãos, de tal modo que não fossem necessários grandes deslocamentos para trabalhar, estudar, ir ao médico ou divertir-se. É como se as cidades se dividissem em várias sub-cidades, todas elas completas, ainda que interconectadas.
Paris, assim como outras cidades, também vem adotando outra ideia: transformar todo pedaço cimentado ou asfaltado inerte em área verde, isto é, numa praça ou jardim, aumentando não só os espaços de lazer da cidade, mas também contribuindo para a qualidade do ar, do microclima, da paisagem, entre outros benefícios para seus cidadãos.
Este é um tema que ganha ainda mais importância se levarmos em conta os preocupantes dados publicados nesta semana pela ONU, através do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas. É claro que o aumento da temperatura do planeta não se deve apenas às cidades, mas elas podem contribuir decisivamente para combater esse problema, cuja ubiquidade atingirá tanto os ricos quanto os pobres.
As oportunidades foram dadas às cidades, agora é hora de ter coragem em fazer as mudanças para o mundo que virá assim que a pandemia passar. Deste modo, quem sabe, muitos daqueles que saíram ou pensam em sair das cidades acabem chegando à conclusão de que aqui é o melhor lugar para viver e criar seus filhos.

Tarcísio Bahia

Arquiteto, professor da Ufes e diretor do IAB/ES. Cidades, inovacao e mobilidade urbana tem destaque neste espaco

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