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Tarcísio Bahia

Só carros voadores podem nos salvar dos atrasos nas BRs 101 e 262

Somos um dos países com maiores índices de acidentes rodoviários do mundo, boa parte deles causados pela precariedade das nossas rodovias

Publicado em 16 de Maio de 2019 às 18:57

Públicado em 

16 mai 2019 às 18:57
Tarcísio Bahia

Colunista

Tarcísio Bahia

 
Obra de duplicação da BR 262 na altura de Marechal Floriano: modelo de concessão da rodovia está sendo estudado. Crédito: Divulgação
Só pode ter sido de propósito. Ou será que não, que foi apenas uma coincidência?
O fato é que logo após as obras de duplicação da BR-262, sob responsabilidade do DNIT, terem sido paralisadas, criando enormes transtornos e prejuízos aos motoristas que trafegam pela região serrana do Espírito Santo, o mesmo DNIT autoriza o início das obras do Contorno do Mestre Álvaro, no município da Serra.
O Espírito Santo tem duas rodovias federais que cortam seu território, a BR-262 no sentido transversal, vindo de Minas Gerais em direção ao litoral, e a BR-101 que passa longitudinalmente de norte a sul. É a principal maneira de o Estado se comunicar, isto é, levar e trazer mercadorias, permitir a locomoção das pessoas, com o resto do país.
O Brasil, infelizmente, copiou o modelo norte-americano, no qual o setor privado incentivou o “desmantelamento da infraestrutura de transporte de pessoas e cargas”, que já teve na ferrovia um modal estratégico, fazendo com que o governo adotasse o sistema baseado em petróleo, rodovias, automóveis e caminhões. Nem mesmo o fato de termos extensos rios navegáveis e um longo litoral serviu como pretexto para que se implantassem aqui linhas hídricas para transporte de passageiros e mercadorias. E aí bastou uma greve de caminhoneiros para o país literalmente parar.
E é realmente entristecedor saber que já tivemos uma rede ferroviária extensa, iniciada em pleno século XIX sob o governo de D. Pedro II. Hoje, em várias cidades brasileiras, muitas delas ainda pequenos municípios, existem estações ferroviárias que, apesar de terem se tornado patrimônio histórico arquitetônico que representa uma época da qual se tem saudade, encontram-se abandonadas.
Estação Ferroviária de Matilde, no interior do ES Crédito: Divulgação/PMAC
Não se está aqui argumentando contra a estrutura rodoviária e o uso de veículos sobre pneus, mas ao fato desse sistema ser quase hegemônico em detrimento dos demais modais, seja a nível urbano ou mesmo inter-regional. Nossas rodovias federais até possuem uma adequada lógica de planejamento, no qual foram projetadas rodovias radiais (as iniciadas com zero) que saem de Brasília; as longitudinais (iniciadas com 1) que percorrem o país de norte a sul, como a 101; as transversais (iniciadas com 2), que é o caso da 262; e assim por diante; de tal modo que o país possa ser totalmente conectado. Ocorre, porém, que tais rodovias foram planejadas e projetadas há décadas, contendo um traçado inadequado para o volume de tráfego, velocidade e porte dos veículos atuais, principalmente quando se consideram as carretas e bitrens que cortam o Brasil com produtos para serem consumidos em todas as regiões ou até no exterior.
Somos um dos países com maiores índices de acidentes rodoviários do mundo, boa parte deles causados pela precariedade das nossas rodovias (além, é claro, da imprudência dos motoristas, daí a importância dos radares que limitam a velocidade nos pontos mais críticos das vias). Aliás, um dos trechos com mais graves acidentes do país, segundo dados da Polícia Rodoviária Federal, está localizado no município da Serra, justamente o maior beneficiário com a construção do contorno do Mestre Álvaro.
Uma das vantagens desse novo trecho da estrada será tirar um enorme volume de veículos, principalmente caminhões, de uma parte da Serra que hoje é totalmente urbana, ou seja, no futuro aquela via pode se tornar uma avenida comercial com foco nos pedestres e na micromobilidade, com menos ruídos, poluição do ar e sonora, mais segurança, enfim, aquilo que se chama hoje de Rua Completa.
Por outro lado, é preocupante o atraso das obras de duplicação da BR-101 pela concessionária que, ao justificar o atraso ou até a sua não conclusão, parece desdenhar da população capixaba que vem pagando pedágio nesses últimos anos.
Já no caso da BR-262 o problema está na mão do TCU que, ao fazer o seu papel fiscalizador, tampouco pensa no prejuízo tanto para a população quanto para os cofres públicos, pois parte das obras já realizadas podem ser perdidas ao longo do tempo.
Resta torcer para que os carros voadores, em desenvolvimento por empresas como Audi, Airbus e Boeing, cheguem logo aos consumidores capixabas.

Tarcísio Bahia

Arquiteto, professor da Ufes e diretor do IAB/ES. Cidades, inovacao e mobilidade urbana tem destaque neste espaco

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