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Arquiteto, professor da Ufes e diretor do IAB/ES. Cidades, inovação e mobilidade urbana têm destaque neste espaco

Paisagem e ambiente devem ser vistos como bem coletivo

Que sejamos sábios, como os povos que vieram antes de nós, e saibamos preservar o futuro do planeta, o da nossa espécie e de todas as outras que aqui também vivem conosco em harmonia

Publicado em 13/05/2021 às 02h00
Quinta-feira (26) de tempo aberto e ensolarado na Praia de Camburi, em Vitória
A paisagem cultural é um conceito que abarca aqueles ambientes que foram modificados pelo homem, como a Praia de Camburi. Crédito: Fernando Madeira

A paisagem cultural é um conceito que abarca aqueles ambientes que foram modificados pelo homem. Hoje é inclusive uma categoria de bem patrimonial da Unesco, que considera tanto as paisagens criadas artificiosamente, como são os jardins históricos, como também os lugares que foram sendo adaptados aos poucos, tal qual, por exemplo, uma cidade em que os elementos naturais – como morros, praias, rios, etc. – se relacionam com estruturas edificadas, como são os edifícios e as pontes.

A relação do homem com o território habitável sempre foi respeitosa. Havia um entendimento do valor sagrado do lugar, como mostram os estudos arqueológicos em vários sítios humanos desde o período paleolítico espalhados pelo planeta.

Já no mundo clássico, como bem demonstrou o pesquisador Vincent Scully em relação aos gregos no caso dos seus templos, a localização das construções obedecia ao que se chamava genius loci, ou o “espírito do lugar”. A escolha de onde ocupar e construir não era, portanto, algo arbitrário, mas interpretado como uma indicação divina, considerando também tanto aspectos racionais quanto sensíveis por parte do homem.

Com os romanos e sua vasta expansão política que demandou obras de infraestrutura, como estradas, pontes e aquedutos em todo o seu domínio territorial, o respeito às características de cada lugar ficou ainda mais evidente, de tal modo que grande parte delas foi resistindo ao tempo histórico, ao clima e ao uso social. Mais do que isso, ainda hoje, parecem que os lugares é que se adequaram àquelas obras, tal é a simbiose delas com o ambiente onde se encontram.

A partir do Cristianismo, ocorre uma interpretação do texto bíblico de que a ação humana sobre o território visa reconstruir o Paraíso perdido. O traçado viário das cidades se torna orgânico, com ruas tortuosas acompanhando o relevo, enquanto as catedrais se conformam como florestas petrificadas. Há uma reinterpretação da natureza, com o desejo de domesticação da paisagem.

É bastante simbólico e pitoresco as imagens de dezenas de pequenas cidades europeias medievais localizadas em vales ou sobre morros que parecem estar ali desde o princípio dos tempos, como se elas fossem obra da própria natureza.

Mas este tipo conceitual de ocupação do território, que busca uma ação harmoniosa com o lugar, também ocorreu em outras partes do planeta por outras civilizações, como na América pré-colombiana ou em diversas partes da Ásia, cada uma delas com modos específicos de lidar com a paisagem.

O mundo contemporâneo certamente é mais complexo que o de períodos precedentes, e já com boa parte do planeta tendo sido ocupado e modificado. Por outro lado, o conhecimento técnico disponível, bem como o ferramental que alivia de modo significativo o trabalho braçal e os riscos de acidentes, possibilitam que a ação humana seja menos incisiva.

Não obstante, temos cada vez mais regramentos que visam proteger o meio ambiente, nossa paisagem, o planeta onde vivemos. Um caso emblemático é o Rio de Janeiro, justamente a primeira paisagem cultural urbana brasileira elevada à categoria de patrimônio da humanidade pela Unesco. Obras que fazem parte desta paisagem, como o Aterro do Flamengo e a Praia de Copacabana, construídas de modo artificioso, provavelmente não seriam aprovadas nos dias atuais.

Uma vez instaladas lá, porém, e sabedores da sua importância como símbolo artístico da história de um povo, temos que proteger aquela paisagem modificada pelo homem, guardando-a para futuras gerações.

De modo geral, a paisagem cultural decompõe-se em paisagem urbana e paisagem rural. Ou seja, ambas são ambientes modificados pelo homem, ainda que o espaço rural seja predominantemente composto por elementos naturais, como são as áreas agrícolas. O fato é que tanto numa – a urbana – como na outra – a rural – a presença do homem é constante e determinante para sua conformação.

Nosso planeta, o lugar onde nascemos, vivemos e morreremos, e pelo qual nossos filhos também passarão, é composto tanto pela paisagem cultural, esta que está perto de nós, que vemos diariamente, quanto pela paisagem natural, algo mais distante, vista muitas vezes apenas pelas lentes de veículos de imprensa, pois os estudos realizados por pesquisadores preocupados com a proteção dos ecossistemas normalmente não chegam à sociedade.

Mas não é necessário ter tudo aos olhos para saber que algo existe. As viagens oceanográficas dos navegadores europeus, entre eles os portugueses, só foi possível por que eles sabiam que a Terra não era plana, mesmo não podendo ver o que havia depois da linha do horizonte. Não preciso ver um vírus microscópico para saber que ele existe, e que mata.

A paisagem, a natureza, o homem, fazem parte de um todo, uma unidade da qual não se pode excluir uma parte sem a perda do equilíbrio que nos trouxe até aqui. Que sejamos sábios, como os povos que vieram antes de nós, e saibamos preservar o futuro do planeta, o da nossa espécie e de todas as outras que aqui também vivem conosco em harmonia.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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