O verão chegou com força em 2019: muito calor e praias cheias. E aí não tem jeito, todo mundo indo pra junto do mar querendo se divertir!
Mas o brasileiro há muito deixou de ser um povo solidário e atento à lógica do “seu direito acaba onde começa o dos outros”. O respeito aos demais é uma questão básica de cidadania que permite vivermos em comunidade. E como somos uma sociedade democrática, pelo menos em tese, todos possuem os mesmos direitos, ainda que na realidade nem todos tenham as mesmas oportunidades.
De qualquer modo, não existe lugar mais democrático do que a praia, onde ricos e pobres se sentam lado a lado na areia em cangas ou cadeiras, sob um guarda-sol e mergulham no mesmo mar para se refrescar ou se divertir.
Bom seria se fôssemos mais conscientes e respeitosos com os demais, então tudo seria uma maravilha, e a praia seria mesmo só curtição. Mas, infelizmente, não é exatamente o que tem ocorrido. Creio que todos já devem ter passado por algum tipo de aborrecimento num dia de praia: flanelinhas, ambulantes, lixo, churrasco, jogos em locais inadequados e, agora, as caixas de som. Como sempre a solução indicada é regulação impeditiva e fiscalização, duas ferramentas que já se mostraram ineficazes e insuficientes. É impossível uma fiscalização onipresente e já temos tanta legislação, que outra(s) mais só significa letra sobre papel, afinal o brasileiro já sabe o que é certo ou errado, e aí é questão de escolha, normalmente prevalecendo a falta de bom senso.
Mas não é justo que aqueles que praticam a retidão (sim, eles existem, e não são poucos), paguem pelo excesso dos “sem noção”.
Ocorre que, em pleno século XXI, estamos vendo o acirramento entre os diversos grupos sociais que compõem a humanidade.
A radicalização entre esquerda e direita, entre nacionalistas e globalistas (e no meio, os imigrantes), entre ricos e pobres, entre conservadores e progressistas, judeus e árabes, palmeirenses e corintianos, pró isso e contra aquilo, etc, vem alcançando níveis inimagináveis. É como se estivéssemos voltando à Idade das Trevas, de tal modo que a retomada literal de um muro, refratário à integração, é posta como solução, como se viu na Idade Média. E assim tem sido: para quem não vê possibilidade de integração, ou se vê ameaçado por ela, a resposta é a imposição de barreira, seja ela física ou burocrática. “Farinha pouca, meu pirão primeiro”.
Daí que, aparentemente, o sonho de John Lennon ficará cada vez mais distante...
Voltando a questão das praias, e ainda que no Brasil elas sejam públicas, o risco é o surgimento de ideias esdrúxulas e radicais propondo uma espécie de zoneamento da faixa litorânea: trecho de praia para quem quer ter ambulante por perto; outro para quem quer levar caixinha de som; um para quem quer praticar esportes na areia; e, até para quem quer apenas curtir a praia com sossego e assim por diante.
De certo modo, isso já vem sendo posto em prática, mas de maneira velada: quem quer jogar frescobol, por exemplo, tem uma faixa específica de areia, como se vê em várias praias do país.
Que a sociedade seja fragmentada e que os diversos grupos tenham gostos diferentes é fato e algo até mesmo positivo, proporcionando uma maior diversidade cultural. O problema é quando isso é feito de modo forçado e ultrapassando os limites do bom senso.