“No tempo dos merréis e do vintém / Se vivia muito bem, sem haver reclamação / Eu ia no armazém do seu manoel com um tostão / Trazia um quilo de feijão / Depois que inventaram o tal cruzeiro / Eu trago um embrulhinho na mão / E deixo um saco de dinheiro / Ai, ai, meu Deus” (“Saco de feijão”, Chico Santanna)
Mesmo com a alta de preços de diversos produtos por razões distintas, como o calor excessivo ou chuvas torrenciais, a expansão das redes de supermercado pelas médias e grandes cidades brasileiras mostra a pujança do setor e confirma o enorme mercado consumidor do país.
Normalmente o que se abrem são lojas enormes, os tais hipermercados, que incitam o público a gastar tempo e dinheiro diante de tanta variedade de produtos, numa ação consumista nem sempre movida pela razão e prudência.
Como são equipamentos que necessitam de grandes áreas para serem implantados, é normal que eles se localizem fora das áreas centrais e mais adensadas das cidades. Sempre oferecem ampla oferta de vagas de estacionamento para veículos; mesmo assim é comum que pessoas que nem sequer possuam automóveis acabem fazendo suas compras mensais ou semanais nesses hipermercados, pois fazem uso de transporte por aplicativos para retornarem para casa com as sacolas cheias.
Tudo muito prático. Mas quais poderiam ser as consequências, tanto para as cidades quanto para a população, dessa expansão do setor?
O fechamento daqueles mercadinhos de bairro, onde nos tornamos amigos dos donos e íamos a pé, e de vez em quando até se pendurava a conta, se torna algo quase inevitável. E sem tal estabelecimento próximo das nossas casas (que sempre nos socorria quando faltava algo para preparar o almoço), teremos que nos deslocar aos grandes supermercados, fazendo uso de um veículo automotor, o que é ruim tanto para a mobilidade urbana das cidades, quanto para a mudança climática (a não ser que o carro seja elétrico, algo ainda raro por aqui).
Além disso, sem esses mercadinhos, as calçadas ficam mais esvaziadas, algo indesejado para a vida urbana, e principalmente para a segurança pública, questão premente das cidades brasileiras.
Com tanta oferta de produtos à venda, os hipermercados seduzem os consumidores, ao ponto de muita gente acabar comprando coisas que talvez não fossem necessárias. Ótimo para o lucro das redes supermercadistas, porém péssimo para muitas famílias que acabam se endividando, uma vez que os gastos superam a capacidade de pagamento das pessoas, criando uma bola de neve que vai do econômico ao social, já tendo passado pelo urbano.
Algumas cidades mundo afora já tentaram lidar com tal problema, mas o fato é que, principalmente no Brasil, a força do poder econômico das empresas acaba prevalecendo, convencendo as administrações municipais que há outras questões prioritárias para se preocuparem.
Nesse duelo entre Davi e Golias, os mercadinhos vão mesmo perdendo a clientela pois só conseguem ofertar os mesmos produtos com preços acima do que os encontrados nos hipermercados, já que estes têm ganho de escala junto aos fornecedores, conseguindo obter suas mercadorias com valores extremamente baixos.
Nesse ponto cabe lembrar que entre algumas das maiores fortunas do mundo estão os empresários do setor supermercadista.
Da nossa parte, podemos até lamentar tais mudanças na vida urbana, mas acabamos cedendo à lógica financeira, afinal ao doer menos no nosso bolso acreditamos que todo o resto não tem importância.
Os serviços de entrega de comida por aplicativo, por exemplo, também se tornaram muito práticos para quem tem como prioridade comer rápido e/ou barato, sem se preocupar se tal preferência poderá esvaziar o consumo presencial em bares e restaurantes e, consequentemente, deixar as calçadas com menos gente circulando. De fato, até agora as cidades continuam tendo um bom público lotando seus bares e restaurantes, apesar do fechamento de muitos desses estabelecimentos, alguns inclusive tradicionais e localizados em áreas centrais.
Tudo isso vai contra a ideia proposta por Anne Hidalgo, prefeita de Paris, que trouxe o conceito de “cidade 15 minutos”, em que, entre outros aspectos, defende a cidade compacta com bairros autônomos, onde a população desloca-se cada vez menos, inclusive para ir ao mercado realizar suas compras, e se possível sem o uso do automóvel.
Enfim, como não dá pra retroceder no tempo, e o hipermercado é uma realidade da vida contemporânea, a questão que se coloca é: será que não poderíamos ter uma cidade diversificada em que ambos modelos de negócios pudessem coexistir?