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Arquiteto, professor da Ufes e diretor do IAB/ES. Cidades, inovação e mobilidade urbana têm destaque neste espaco

Agora teremos que racionar o gasto com eletricidade

Na desigualdade que domina o Brasil, o consumo de eletricidade e de água é relativamente baixo, considerando que aqui existe uma enorme população que nem sequer possui equipamentos elétricos em suas casas

Publicado em 02/09/2021 às 02h00
A seca no Rio Doce em Colatina
Rio Doce, em Colatina, sofre com a seca. Crédito: Heriklis Douglas

“Quem me dera ao menos uma vez / Que o mais simples fosse visto / Como o mais importante / Mas nos deram espelhos e vimos um mundo doente” (“Índios”, Renato Russo)

Conforme dados divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o fogo continua consumindo ano a ano nossas matas, reduzindo nossas reservas florestais, dizimando plantas e animais, sem que ocorra nenhuma ação eficaz deste governo para impedir tal desastre (pelo contrário, sabe-se que a vontade do Executivo federal é mesmo liberar áreas devastadas para expansão agrícola, garimpo e extração de madeira).

Enquanto isso, enfrentamos mais uma crise hídrica que vem deixando os reservatórios das hidrelétricas em situação crítica.

Tenta-se apagar o fogo com água, mas cada vez há menos água... A destruição da mata, notadamente a ciliar às margens dos cursos d’água, extingue pouco a pouco o volume de água dos nossos rios. Menos água correndo no solo, menos chuva vinda do céu. E assim, as bacias hidrográficas e, consequentemente, os lagos hidrelétricos encontram-se com cota cada vez mais baixos.

Se um território devastado pelo fogo é assustador, um rio seco não é uma paisagem menos dramática. Do mesmo modo, são aterrorizantes as imagens de comunidades nas quais as pessoas vivem sem água encanada, ao lado de lixo e esgoto, algo ainda muito comum nesse gigantesco país que um dia foi conhecido pela exuberância das suas matas e rios.

Na desigualdade que domina o Brasil, o consumo de eletricidade e de água é relativamente baixo, considerando que aqui existe uma enorme população que nem sequer possui equipamentos elétricos em suas casas, além de conviver com escassez de água em suas torneiras. Gente que recebe pouquíssima água não só para beber, mas também para preparar os alimentos, para lavar roupa ou até tomar banho.

Rede de esgoto?! Ah, isso é apenas para uma parcela privilegiada de brasileiros.

Daí que se fôssemos uma nação mais justa, o consumo de energia elétrica e de água seria ainda maior... Curiosamente, para atingirmos algumas das metas da Agenda 2030 do Desenvolvimento Sustentável, conforme proposto pela ONU e os Estados-membros, entre eles o Brasil, é fundamental a disponibilidade igualitária de energia e principalmente de água para a população.

Mas agora teremos que racionar o gasto com eletricidade, inclusive para ver se sobra um pouco mais de água nos lagos das usinas, afinal nossa matriz energética é concentrada nas hidrelétricas, responsáveis por mais de 50% da produção de energia consumida pelos brasileiros.

Temos vento e sol em abundância, porém usamos muito pouco essas fontes energéticas, que também são renováveis e não poluentes. Ainda são poucas as usinas eólicas instaladas no Brasil, estando a maioria delas no Nordeste. E no caso da energia solar fotovoltaica, que é a que gera eletricidade (a energia solar térmica, por exemplo, é usada para aquecer líquidos, normalmente no aquecimento da água de banho), ainda é algo insipiente no país.

A solução dada foi algo simples: criar uma nova bandeira tarifária, a chamada “escassez hídrica”, acionando o uso de mais termelétricas, mais poluentes e com custo maior, tudo pago, claro, pelo povo aqui de baixo. Ainda assim, o risco do apagão é bastante alto. Então também teremos que deixar um bocado de aparelhos desligados.

Não se sabe, porém, se as indústrias farão o mesmo, isto é, desligar seus equipamentos e reduzir a produção... E tampouco é provável que o setor do agronegócio diminua o gasto com água na irrigação, afinal é preciso produzir alimentos para serem vendidos para o mundo.

Por outro lado, é sabido como desperdiçamos muita água, tanto com vazamentos, mas principalmente com um modelo inadequado de consumo. É uma questão cultural, mas o fato é que é comum vermos em nossas cidades calçadas serem lavadas diariamente. Já a água da chuva que cai nessas mesmas cidades, inclusive nas calçadas, corre pelo bueiro...

A situação da energia elétrica é um pouco distinta, pois ela não é armazenável. Neste caso, o desperdício ocorre quando, por exemplo, se deixa algum aparelho elétrico ligado desnecessariamente. O problema é que cada vez mais dependemos dos equipamentos elétricos e eletrônicos, seja uma geladeira onde conservamos os alimentos, seja um celular que nos conecta com o mundo.

A esta altura não dá nem pra querer ser irônico e dizer que o ideal seria viver como índios, pois para eles a situação atual tá ainda pior.

“Nos deram espelhos e vimos um mundo doente / Tentei chorar e não consegui”

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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