Desde a publicação de “A Riqueza das Nações” por Adam Smith, em 1776, que os economistas estudam os determinantes ou “motores” do crescimento econômico, condição fundamental para que uma nação ou região seja considerada desenvolvida. Com o passar dos anos os modelos científicos que explicam o crescimento econômico vêm se sofisticando, ao mesmo tempo em que o avanço da tecnologia tem permitido uma profusão de dados que explicam empiricamente tal crescimento.
E é pelo lado dos dados que o IBGE ofereceu recentemente uma relevante contribuição para entendermos melhor os determinantes do crescimento regional do Brasil e seus estados.
Nesse sentido, o IBGE publicou dados sobre os “motores” do crescimento regional pelo lado da demanda final para as 27 Unidades da Federação (UFs). A demanda final refere-se ao valor dos bens e serviços comprados pelo consumidor (famílias, governo e empresas).
Neste artigo vamos mostrar a composição da demanda final da economia do Espírito Santo, um dado até então inédito e recém-divulgado pelo IBGE para o ano de 2018. Como a composição da demanda final não se altera facilmente no curto prazo, podemos interpretar tal composição como estrutural.
Os “motores” do crescimento regional pelo lado da demanda final são: exportações para países; exportações para UFs; consumo das famílias; consumo do governo; investimento. Além dos “motores” tradicionais, a principal vantagem dos novos dados é a desagregação das exportações estaduais, tanto para o exterior (países) quanto para outros estados (mercado interno).
Gráfico 1: Participação dos “motores” do crescimento na demanda final do Espírito Santo, 2018
O gráfico 1 exibe a participação dos “motores” do crescimento econômico na demanda final do Espírito Santo. Em linhas gerais, quanto maior a parcela de cada “motor”, mais a dinâmica estadual (em termos de crescimento do PIB) depende dele.
No caso capixaba, as exportações (para UFs e para países) são o maior componente de sua demanda final, pois representam quase 48% da mesma, sendo o seu principal determinante do crescimento econômico. Essa informação é coerente com diversos estudos feitos por economistas capixabas que destacam a elevada conexão da economia local com o restante do país (por meio da atuação de setores como rochas ornamentais, móveis, confecções, produtos alimentícios e produtos agrícolas como, por exemplo, café) e com o mundo (por meio da atuação de setores como minério de ferro, aço, celulose e petróleo), mostrando que a dinâmica estadual depende substancialmente das exportações.
A surpresa é que o peso dessas exportações está mais no mercado interno do que no mercado externo, visto que 71% das exportações do Espírito Santo são destinadas para outros estados. Em outras palavras, se a economia brasileira e a economia internacional vão bem em termos de crescimento econômico, a economia capixaba também vai bem, e vice-versa.
O consumo das famílias aparece como segundo “motor” mais importante do crescimento econômico do Espírito Santo, já que representa 31% da sua demanda final. E em seguida vem o consumo do governo, com 9,3% da sua demanda final. Em linhas gerais, quanto maior o peso do consumo das famílias e do governo da demanda final, menos dinâmicos tendem a ser os “motores” do crescimento regional, os quais dependem essencialmente do aumento populacional, do acréscimo real do salário-mínimo, da carga tributária e de transferências governamentais como, por exemplo, o Programa Bolsa Família (que na gestão anterior do governo federal passou a se chamar Auxílio Brasil).
O Espírito Santo possui cerca de 4 milhões de habitantes e um PIB per capita de pouco mais de R$ 34 mil, ambos dados de 2020, ou seja, representa um mercado de consumo relativamente modesto e ajuda a entender por que o consumo das famílias é menos relevante do que as exportações em termos de crescimento econômico. Dito de outra maneira, os capixabas produzem e vendem mais para o mundo e resto do país do que para si mesmos.
Além disso, os indicadores sociais do Espírito Santo vêm melhorando ao longo dos anos: um exemplo é a extrema pobreza (pessoas com renda per capita mensal igual ou inferior a R$ 168), que caiu de 4,3% para 3,8% entre 2010 e 2020. No caso do Brasil esses índices foram de 6,6% e 5,7%, respectivamente.
É obvio que existe um caminho a ser trilhado para o Espírito Santo alcançar índices de desenvolvimento ainda melhores, mas essa evolução mostra uma menor dependência do governo por parte da população e é refletido na baixa proporção do consumo do governo na demanda final.
O componente menos relevante do crescimento econômico capixaba é o investimento. Se serve de consolo a participação do investimento é baixa em todo o Brasil, reflexo da baixa taxa de investimento (investimento dividido pelo PIB) em todas as 27 UFs, variando de 9,9% (mais baixa) e 17,1% (mais alta). Isso está bem longe da taxa de investimento da China (40%), Coreia do Sul (30%) e da economia mundial (25%), para ficar em alguns exemplos.
Com esses dados do IBGE ficou claro que nem os estados agrícolas dinâmicos (Mato Grosso, Goiás e Mato Grosso do Sul), ou os estados exportadores de minérios ou petróleo (Rio de Janeiro, Minas Gerais, Pará e Espírito Santo) possuem taxa de investimento superior à economia mundial.
Em síntese, os dados apresentados anteriormente mostram que quanto maior o peso das exportações e do investimento, mais dinâmica tende a ser a economia regional. Na economia mundial, a China é o caso mais emblemático de altíssimo crescimento devido principalmente a sua taxa de investimento e a sua competitividade no comércio internacional. Contudo, a China é um ponto fora da curva!
No caso do Espírito Santo (e do Brasil também), os dados mostram que precisamos aumentar nossa taxa de investimento para continuar crescendo nas próximas décadas e isso passa por um conjunto de questões estruturais que dependem mais de soluções nacionais (notadamente político-institucionais, regulatórias, tributárias, macroeconômicas e de infraestrutura) do que estaduais (continuar avançando na melhoria da saúde, da educação, do ambiente institucional para negócios, na promoção e atração de investimentos do setor produtivo visando a diversificação e sofisticação da matriz econômica).
Criar condições favoráveis para o aumento da taxa de investimento é fundamental para o crescimento econômico, e investimento é o componente mais relevante no aumento da produtividade de uma economia. Como disse certa vez Paul Krugman, prêmio Nobel de Economia, “produtividade não é tudo, mas no longo prazo é quase tudo”.