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Economia

A estrutura produtiva do Espírito Santo é complexa?

A tese de que a sofisticação da estrutura produtiva é central para a superação do subdesenvolvimento tem ganhado espaço na literatura econômica

Publicado em 20 de Outubro de 2023 às 15:11

Públicado em 

20 out 2023 às 15:11
Sávio Bertochi Caçador

Colunista

Sávio Bertochi Caçador

A tese de que a sofisticação da estrutura produtiva é central para a superação do subdesenvolvimento tem ganhado espaço na literatura econômica. Os trabalhos do físico chileno César Hidalgo, atualmente na Universidade de Toulouse (França), e do economista venezuelano Ricardo Hausmann, da Universidade de Harvard (EUA), sobre complexidade econômica reacenderam o debate sobre a importância da transformação estrutural para o processo de desenvolvimento econômico.
Os dois conceitos básicos para aferir se um país ou região é complexo economicamente são a ubiquidade e a diversidade de produtos encontrados em sua pauta exportadora. Se uma determinada economia é capaz de produzir bens não ubíquos, raros e complexos, é um indicativo de que ela tem um sofisticado tecido produtivo. Os bens não ubíquos devem ser divididos entre aqueles que têm alto conteúdo tecnológico e, portanto, são de difícil produção, e aqueles que são muito escassos na natureza. Para controlar esse problema dos recursos naturais escassos na medição da complexidade, Hidalgo e Hausmann comparam a ubiquidade do produto em determinada economia com a diversidade de produtos que ela é capaz de exportar.
O modelo proposto por Hidalgo e Hausmann incorpora o comércio internacional por entender que as vantagens comparativas das regiões são reveladoras do grau de especialização econômica. Nessa perspectiva, a mudança estrutural deve ser orientada pelo aumento da participação de produtos sofisticados (embarcados com tecnologia e serviços avançados) no total produzido e exportado pelas regiões. Regiões capazes de produzir produtos complexos seriam dotadas de capacidades complexas. A intuição do modelo é de que se uma localidade consegue exportar um determinado produto com vantagem comparativa, essa localidade possui as capacidades necessárias para sua produção. Nesse sentido, a complexidade da localidade está relacionada à complexidade dos produtos exportados por ela.
Os dados de complexidade econômica, baseados em comércio internacional, tecnologia (patentes) e pesquisa científica do Observatório da Complexidade Econômica (Country Rankings | OEC - The Observatory of Economic Complexity) mostram que os países desenvolvidos (principalmente EUA, Japão, Coréia do Sul e Europa Ocidental) possuem estrutura produtiva complexa, o que explica seus níveis de renda per capita superiores e níveis de desigualdade de renda inferiores aos países em desenvolvimento. A intuição por trás desses dados é a seguinte: estrutura produtiva complexa demanda geração e uso de conhecimento, o que requer profissionais qualificados, fomentando um aumento da escolaridade e da qualidade do ensino em todos os níveis.
Brasil, infelizmente, não tem uma estrutura produtiva complexa. O ranking do Observatório da Complexidade Econômica mostra que o país ocupava, em 2021, a posição 12 de 96 países na complexidade tecnológica, a posição 20 de 140 na complexidade científica, mas a posição 49 de 131 na complexidade de comércio internacional. Lembrando que o país tem o 8º maior PIB do mundo (US$ 3,1 trilhões), em termos de paridade do poder de compra, e um PIB per capita mediano (61ª posição e pouco mais de US$ 11 mil).
Traduzindo: o Brasil até que está bem colocado em termos de produção de tecnologia e de pesquisa científica, mas não consegue converter isso em produtos complexos e exportados. Basta verificar o que predomina na sua pauta de exportação: minério de ferro, petróleo, grãos (soja e milho) e carnes.
Dentre os Estados brasileiros a heterogeneidade em termos de complexidade econômica também é grande. A plataforma DataViva, iniciativa da Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais e do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional da UFMG, apresenta dados de complexidade econômica dos Estados brasileiros na ótica do comércio internacional e na ótica dos empregos.
No primeiro caso (dados de 2020), Rio de Janeiro, São Paulo e Santa Catarina lideram esse ranking, com o Espírito Santo na modesta 19ª posição. Na ótica da complexidade dos empregos (dados de 2021) os líderes são: São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, com o Espírito Santo na 13ª posição. Vale lembrar que o Espírito Santo possui um grau de abertura de sua economia relevante perante o contexto nacional, mas nossa pauta de exportação se baseia em minério de ferro, aço, pasta de celulose, café e rochas, isto é, produtos pouco sofisticados e de complexidade relativamente baixa.
Todavia, o que mais preocupa é que os dados de complexidade econômica dos últimos 20 anos, e que estão disponíveis na plataforma DataViva, são praticamente os mesmos. Em outras palavras, os dados mais recentes mostram que a estrutura produtiva capixaba tem baixa complexidade em relação a outros Estados, e o seu histórico mostra que ela pouco evoluiu em termos de complexidade. Isso ajuda a compreender por que o Espírito Santo está comparativamente “estagnado” em termos de PIB e de PIB per capita: no primeiro caso, o Estado ocupava a 12ª posição em 2003 e passou para a 14ª colocação em 2020; no segundo caso, o Estado passou de 8º colocado para 9º em igual período.
Em suma, os dados de complexidade econômica do Espírito Santo mostram um retrato que pode ser melhorado nas próximas décadas. Se o Estado quer mudar de patamar em termos de desenvolvimento econômico, é preciso construir meios de tornar sua estrutura produtiva mais complexa.

Sávio Bertochi Caçador

E economista, doutor em Economia pela Ufes, professor e consultor

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