Nas últimas três décadas ocorreram mudanças importantes nas facilidades de transporte, comunicações e processamento de dados, com efeitos sobre os processos produtivos, os fluxos comerciais e a movimentação internacional de capitais, entre outros. Como resultado a maior parte das economias passou a ficar interligada em formato e em intensidade sem precedentes.
A expressão “globalização” começou a ser usada com mais frequência a partir da década de 1980, refletindo avanços tecnológicos – como processos de transmissão de dados e capacidade ampliada de seu processamento – que facilitaram e tornaram mais rápidos os fluxos comerciais e financeiros.
O processo de globalização envolve três dimensões: i) dimensão financeira, dado o aumento do volume de recursos e sua maior velocidade de circulação; ii) dimensão comercial, com semelhança crescente das estruturas de demanda, homogeneidade da oferta nos diversos países e maior preocupação com o valor adicionado localmente do que com a composição dos fluxos de mercadorias; iii) dimensão produtiva, com crescente convergência de técnicas produtivas e estratégias administrativas, avanços tecnológicos, interligação de economias em cadeias produtivas, crescente dependência dos serviços, entre outras características.
Em estudo realizado pelo FMI em 2008, alguns dos indicadores mais expressivos da globalização – anteriores à crise de 2008 – são: i) o comércio de bens e serviços como proporção do PIB global aumentou de 42% em 1980 para 62% em 2007; ii) o montante de investimento externo direto global aumentou de 6,5% do PIB em 1980 para 32% em 2006; iii) o estoque de empréstimos bancários como proporção do PIB global aumentou de 10% em 1980 para 48% em 2006; iv) o número de trabalhadores estrangeiros aumentou de 2,4% da população mundial em 1965 para 3% em 2005; v) os fluxos de capitais flutuaram entre 2% e 6% do PIB mundial em 1980-1995, passando a 15% em 2006.
A crise iniciada em 2008 é um momento de ruptura no processo de globalização. Segundo estudiosos do tema, o volume global de comércio cresceu em média 3,5% anuais entre 2009 e 2018, bem abaixo dos 7,6% registrados antes de 2008. O montante de investimentos diretos registrou queda de 28% em 2008, em relação ao nível de 2000. Os investimentos em carteira também experimentaram retração expressiva. E isso antes do ano trágico de 2020, quando essas variáveis tiveram taxas de crescimento fortemente negativas. Esses dados são os principais elementos do que vem sendo chamado de processo de desglobalização.
ECONOMIA BRASILEIRA
A economia brasileira se encontra em condição singular nessa conjuntura, com perfil baixo de presença no mercado de mercadorias, mas expressivo na circulação de recursos, e com exposição limitada em termos de acordos firmados com outras economias.
Em que pese estar frequentemente listado entre as dez maiores economias do planeta, o Brasil tem tido tradicionalmente presença marginal no comércio internacional. As exportações brasileiras há muito não chegam a superar 1,4% das exportações e 1,3% das importações globais. Se no comércio de mercadorias a participação brasileira no mercado mundial é limitada, essa presença é ainda menor nas transações em serviços. Em seu ponto máximo, em 1984, os serviços exportados pelo Brasil chegaram a representar não mais que 0,8% das transações globais, e essa participação vem decrescendo linearmente desde então.
E a economia do Espírito Santo, como ela se insere nesse debate sobre globalização e desglobalização? Os dados recentes e a histórica econômica local mostram que o estado tem se posicionado relativamente bem na dimensão comercial do processo de globalização. Nesse sentido, o Gráfico 1 mostra a participação (%) das Exportações para Países na demanda final das Unidades da Federação (UFs). Os dados são de 2018 e como a composição da demanda final não se altera facilmente no curto prazo, podemos interpretar tal composição como estrutural. O Gráfico 1 mostra que as Exportações para Países representam 13,8% do PIB do Espírito Santo, o 3º maior peso na demanda final dentre as UFs, ficando atrás de Mato Grosso e Pará.
Gráfico 1: participação das Exportações para Países na demanda final (em %)
Essa elevada participação relativa das Exportações para Países na demanda final da economia do Espírito Santo se a alguns experimentos de inserção global da economia capixaba: café, minério de ferro, aço, pasta de celulose, petróleo e gás e rochas ornamentais.
Esses produtos são os mais relevantes na pauta de exportações capixaba: minério de ferro, 30%; semimanufaturados de aço, 13%; óleos brutos de petróleo, 11%; rochas ornamentais, cerca de 10%; pasta de celulose, 8%; e café em grão, 6%. Esses produtos têm algumas características em comum: i) preços determinados no mercado internacional; ii) valor agregado relativamente baixo.
Já tratamos em artigo anterior que a os anos de 2010 a 2020 foram de retração econômica no Espírito Santo. Mas o que o futuro nos reserva? Se as previsões feitas recentemente pelo Banco Mundial se confirmarem, o componente da demanda final de Exportações para Países perderá potência na economia capixaba. O crescimento econômico global médio potencial cairá para uma mínima de três décadas de 2,2% entre 2022 e 2030, dando início a uma "década perdida" para a economia mundial, alertou o Banco Mundial.
Se a economia global de fato desacelerar nos próximos anos, a economia capixaba sentirá seus efeitos negativos, caso medidas como políticas públicas que incentivam o trabalho, aumentam a produtividade e a complexidade econômica e acelerem o investimento não sejam tomadas.
Em síntese, a economia capixaba se beneficiou até os anos 2000 do processo de globalização, especialmente na sua dimensão comercial, dado que seu modelo de desenvolvimento se baseou fortemente na produção e exportação de commodities e outras mercadorias de baixo valor agregado.
Com a crise de 2008 houve uma ruptura e começamos a ver um processo de desglobalização que, em conjunto com outros fatores, tem sido um duro golpe no crescimento econômico do Espírito Santo.
Caso os capixabas não queiram assistir a mais uma década perdida, é preciso mudar o atual modelo de desenvolvimento para outro modelo de desenvolvimento baseado em mais complexidade econômica, sem esquecer da inclusão social e da agenda ambiental.
A lição ensinada pela abordagem da complexidade aponta para a necessidade de políticas que priorizem atividades econômicas que, simultaneamente, estejam próximas da atual estrutura produtiva e contribuam para maior sofisticação. Essa priorização demanda um exercício, a ser levado a cabo tanto pelo setor público quanto pelo privado de “autodescoberta” das atuais potencialidades econômicas do estado, de diagnóstico dos principais gargalos e de definição de metas que tornem possível o ganho de vantagem comparativa em produtos mais complexos.