Em sua edição de número 1.279, de 6 de setembro, a Carta do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) trouxe elementos interessantes sobre o fato de que o comércio mundial perdeu dinamismo após a pandemia de Covid-19, por conta de pressões inflacionárias e de elevações das taxas de juros em diversos países, moderando do crescimento econômico global. Farei alguns breves comentários sobre o assunto.
De acordo com o Iedi, “tensões geopolíticas e a adoção de medidas protecionistas também são obstáculos para que o comércio internacional volte a ganhar mais vigor”. Nesse sentido, o documento destacou que “há sinais de fragmentação das relações comerciais de bens e serviços, envolvendo sobretudo EUA e China”. Desglobalização em curso.
Com base nos dados da Organização Mundial do Comércio (OMC), para 2025, o Iedi ponderou que o comércio mundial não deve crescer muito à frente da economia global, restringindo, portanto, as estratégias nacionais de crescimento econômico baseadas nas exportações. Em síntese, “este tem sido o padrão desde a crise global de 2008/2009, que interrompeu um longo período de forte dinamismo das trocas internacionais”.
Os números revelaram ainda que, entre 1990 e 2000, o crescimento do comércio era 2,3 vezes mais intenso do que o da economia mundial, caindo para 1,5 vez entre 2001 e 2008. Essa relação foi de apenas 0,9 entre 2011 e 2023. Houve, portanto, a desaceleração nas exportações mundiais de mercadorias.
Desde os anos 2000, a China vem ganhando participação nas exportações mundiais, chegando em 2021 a responder (14,9%) quase pela mesma parcela de EUA e Alemanha somados (15,2%). No caso apenas dos produtos manufaturados, a liderança é chinesa. Segundo o Iedi, “a participação da China nas exportações mundiais de manufaturados tem sido repetidamente superior ao somatório de EUA e Alemanha desde 2019, com uma vantagem cada vez maior”.
Para o Brasil, o diagnóstico demanda ações no campo das políticas públicas. Afinal, de acordo com o Iedi, desde 2010 vem ocorrendo “o aumento da distância de nossa posição nas exportações totais de mercadorias e nas exportações de manufaturados, refletindo a concentração de nossa pauta em bens primários”.
Há assimetria em relação ao distanciamento de nossas posições enquanto exportadores e importadores de manufaturas, algo que se reflete no déficit da balança desses bens. A precariedade estrutural do mercado laboral brasileiro também é explicada pela estrutura produtiva desindustrializada e pouco sofisticada tecnologicamente, conforme destaquei em artigos anteriores neste espaço.
A participação brasileira nas importações de manufaturados era 1,8 vez da nossa participação nas exportações desses bens em 2010. Em 2022, por sua vez, essa relação subiu para 2,35 vezes. Para concluir, ainda de acordo com o Iedi, “nosso retrocesso no comércio global se dá bem mais do lado das exportações do que do lado das importações de produtos manufaturados”.
Ondas de calor e secas intensas abalam diversas regiões do nosso planeta. O Brasil vem ardendo em chamas, com mais de 5 mil focos de incêndio. Afinal, temos que repensar a nossa estrutura produtiva, as desigualdades extremas e os consumos conspícuos? Em maio, o Rio Grande do Sul sofreu por conta dos efeitos das enchentes, enquanto, em setembro, São Paulo enfrenta uma espessa camada de poluição.