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Emprego em evolução?

Podemos comemorar o aumento recente do emprego?

Entre nós, ocorreu a combinação entre a contribuição mais acentuada de setores que ofertam serviços tradicionais e de outros que ofertam serviços mais sofisticados

Públicado em 

19 ago 2024 às 02:00
Rodrigo Medeiros

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Rodrigo Medeiros

Em artigo publicado na revista Conjuntura Econômica, de julho de 2024, o professor Nelson Marconi, da Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP), trouxe algumas reflexões relevantes. Ele questionou a qualidade dos postos de trabalho que estão sendo gerados no Brasil. Destacarei alguns aspectos da pesquisa feita pelo acadêmico.
Para analisar a questão, Marconi comparou o quadro do emprego em três períodos semelhantes de anos distintos: os primeiros trimestres de 2012, 2023 e 2024. Tal comparação possibilita traçar a evolução do mercado de trabalho durante o primeiro ano do governo Lula da Silva a partir dos números da Pnad Contínua do IBGE.
Nos doze anos em questão, segundo o professor, “o grande responsável pela evolução do número de ocupados foi o grupo dos trabalhadores por conta própria - respondem por 43% da variação observada no período”. Em síntese, destacou Marconi, “o setor que mais cresceu foi o de transportes, confirmando a propalada uberização do mercado de trabalho”.
De acordo com a pesquisa de Marconi, “o chamado processo de pejotização se estendeu a vários setores de serviços com características distintas”. Tal fato provocou queda da arrecadação tributária oriunda do trabalho, criando problemas para o próprio financiamento da previdência.
Entre nós, ocorreu a combinação entre a contribuição mais acentuada de setores que ofertam serviços tradicionais e de outros que ofertam serviços mais sofisticados. Conforme constatou Marconi, “o que ocorreu no Brasil seguiu o que prevaleceu nas economias que se desindustrializaram”.
Em sintonia com artigos que publiquei neste espaço, o acadêmico concluiu que “enquanto a economia brasileira não for alavancada por setores mais dinâmicos, a geração de empregos continuará concentrada em atividades com menores remunerações”. Ele completou afirmando que “tampouco a elevação do nível de emprego poderá implicar superior crescimento econômico, porque não gerará um estímulo à demanda suficiente para tal”.
A desindustrialização, o empobrecimento da estrutura produtiva, a reforma trabalhista e o enfraquecimento dos sindicatos contribuíram para as perdas dos trabalhadores brasileiros. Vivemos em um contexto no qual a quantidade de trabalhadores com diploma universitário e que ocupam vagas fora da própria área, e não exigem formação superior, aumentou mais de 20% em três anos.
Motorista de aplicativo
Motorista de aplicativo Crédito: pvproductions/Freepik
Podemos até comemorar o aumento recente do emprego. No entanto, segundo Marconi, “com o nível de taxa real de juros que praticamos, será muito difícil alcançarmos uma retomada dos investimentos em setores que poderiam viabilizar a virada necessária em nossa estrutura produtiva”. Demandamos políticas públicas que apoiem efetivamente a sofisticação da estrutura produtiva.
A qualidade das elites importa. Elites de alta qualidade executam modelos de negócios que criam valor, ou seja, ofertam mais à sociedade do que recebem. As elites de baixa qualidade, por outro lado, operam modelos de extração de valor das sociedades.
Devemos levar em conta a equidade intergeracional na formulação das políticas públicas. A criação de valor para o longo prazo requer mudanças nas políticas econômicas, bem como nos modelos de negócios. Nesse sentido, a tragédia ambiental do Rio Grande do Sul deveria estar nos servindo como um alerta da necessidade de mudanças.

Rodrigo Medeiros

É professor do Instituto Federal do Espírito Santo. Em seus artigos, trata principalmente dos desafios estruturais para um desenvolvimento pleno da sociedade.

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