Há uma esquina na Praia do Canto que eu conheço de cor. Passei por ela durante anos, todas as manhãs, num ritual simples e capixaba: banca de revistas, cafezinho, papo com quem cruzasse o caminho. Era uma das esquinas mais movimentadas do bairro – e tinha, encravada ali, uma padaria. Uma padaria que, com todo o respeito, tinha que melhorar muito para ser considerada ruim.
Mas era o que havia. E a esquina seguia sendo a esquina.
Até que chegou a notícia: uma rede de supermercados estava negociando o ponto. As tratativas demoraram. A reforma demorou mais ainda, mais de um ano. E naquele período, a esquina virou um palco involuntário de especulações. Todo dia, uma nova teoria. “Vai ser isso”, “Vai ser aquilo”, “Será que vai dar certo?” E, invariavelmente, a pergunta que reunia o maior coro de céticos: “O estacionamento, como é que fica?”
O estacionamento não ficou. O supermercado abriu sem ele. E o que aconteceu foi exatamente o oposto do que os pessimistas previam. A cidade respondeu com seus pés.
O fluxo foi imediato, absurdo, constante. Manhã, tarde, noite. Com gente entrando e saindo, sacola na mão, a pé, vindo de casa. As pessoas passaram a fazer compras menores e mais frequentes. O hábito mudou. O ato de ir ao mercado deixou de ser uma tarefa logística com carro e lista grande, e virou um passeio. Uma pausa no dia. Um pretexto para caminhar pelo bairro.
Nos corredores entre as gôndolas, as pessoas voltaram a se encontrar. A trocar o dedo de prosa. A interagir de um jeito que o modelo de hipermercado com estacionamento gigante havia, silenciosamente, extinguido ao longo de décadas.
Isso tem nome na urbanística contemporânea. Chama-se acupuntura urbana, e já tratamos do tema aqui nesta coluna. Uma pequena intervenção no tecido da cidade que, aparentemente insignificante, ativa energia adormecida, muda rotas, cria novos hábitos e transforma a identidade de um lugar. Não é obra grandiosa. Não é megaprojeto. É precisão cirúrgica no ponto certo.
A Praia do Canto é, talvez, o laboratório mais rico de acupuntura urbana de Vitória. E eu digo isso com o viés assumido de quem vive, ama e observa esse bairro há anos.
Por que a Praia do Canto funciona?
Porque ela é compacta. Porque nela tudo está a uma caminhada de distância. Porque tem um coeficiente de arborização raro no Brasil, jardins bem cuidados, calçadas que convidam, uma generosidade de verde que poucos bairros urbanos conseguem manter. Tem a Praça dos Namorados, magnífica, viva, frequentada por gente de todas as idades em todos os horários. Tem a praia. Tem a Guarderia. Tem a feira de quinta. Tem esquinas que têm história.
E tem localização, palavra que no mercado imobiliário todo mundo repete, mas que aqui se sente na pele. Na Praia do Canto, localização não é argumento de venda. É experiência cotidiana.
Agora, o bairro está de olho em mais uma transformação. O Canal de Camburi, ponto final da Praia do Canto, área que durante muito tempo foi tratada como margem degradada, esquecida, fundo de quintal urbano, começa a receber atenção, mobilização e apostas. A pergunta que se repete hoje é a mesma da esquina de anos atrás: “O que vai acontecer por ali?”
Eu respondo com a mesma convicção de antes, e falo com todas as letras: todos irão se surpreender.
Porque a cidade já está pronta.
Não precisa de milagre. Precisa de visão de um empreendedor, de um órgão público, de uma iniciativa que entenda o que já existe e decida potencializá-lo. A mágica da acupuntura urbana não cria do nada. Ela revela o que a cidade já carrega dentro de si, mas que ainda não encontrou o gatilho certo para emergir.
A esquina da Praia do Canto me ensinou isso. Um supermercado sem estacionamento transformou um hábito coletivo, ativou uma comunidade e provou que, quando a cidade é boa, as pessoas escolhem caminhar.
O Canal de Camburi está esperando seu gatilho. E quando vier, e virá, a cidade vai responder. Como sempre responde.
Quem viver verá.
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