Brasil acima de tudo, Deus acima de todos. Esse é o já conhecido slogan do atual presidente da República. Pensar em um país forte e abençoado é o melhor de todos os mundos. Mas não podemos esquecer que nosso país deve ser laico. E o que isso significa? Que toda e qualquer representação religiosa deve ser respeitada e, além de tudo, que as decisões do Estado jamais podem ser tomadas com base em dogmas e crenças religiosas. E o que está acontecendo no governo Bolsonaro? Exatamente o oposto.
O mais novo ministro da Educação, Milton Ribeiro, (nunca sabemos até quando ele irá durar no cargo, tendo em vista o lamentável histórico da pasta desde 2019) é pastor presbiteriano e, após assumir o ministério, viu alguns vídeos seus virem à tona. Neles, em ambientes de exercício de sua religião, defendeu que há um incentivo nas universidades de “uma prática sem limites do sexo” e se valeu de um artifício clássico, porém nefasto, de culpar a vítima pela violência sofrida dizendo: “O que me preocupa é com a erotização da criança, e a criança então com atitudes e com maneiras e trejeitos que ela vê e imita, provocando pessoas que entendem que a criança está querendo ter algum tipo de relacionamento com ela”.
Não podemos esquecer também da ministra Damares Alves, à frente do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, pastora evangélica que também tem posicionamentos religiosos contrários às crenças e aos estudos da maioria dos pesquisadores e defensores dos Direitos Humanos e de efetivas políticas públicas construídas pelo Brasil durante décadas.
Os argumentos utilizados por Damares e Ribeiro não são aceitáveis para tantas pessoas, mas é importante, especialmente em razão do Estaco laico, que sejam respeitadas as crenças e os dogmas, desde que não interfiram nas vidas alheias e não incorram em delitos. O problema é que eles estão interferindo. E muito. Estão interferindo para piorar a vida de milhares de meninas e mulheres brasileiras, uma vez que crenças religiosas e pessoais estão moldando as políticas públicas do governo federal.
Na última semana, mais um episódio confirmou isso, quando o Brasil se absteve de votar na ONU um relatório do Conselho de Direitos Humanos sobre discriminação de meninas e mulheres, se alinhando a países ultraconservadores, sob o pretexto de que o texto era de defesa do aborto, o que jamais aconteceu, tendo em vista que a prática de aborto no Brasil é criminalizada (salvo pequenas exceções), além de não ser crível relacionar políticas de saúde sexual e reprodutiva com a defesa do aborto pura e simplesmente.
Agir dessa forma é negar o histórico brasileiro de defesa dos direitos humanos e de posicionamento diplomático em busca de composição de conflitos e de garantia da vida.
Do jeito que as coisas andam, Bolsonaro deveria alterar seu slogan para “Meu pequeno Brasil acima de tudo e Eu acima de todos”.