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Política

O pequeno Brasil de Bolsonaro: ministros não respeitam o Estado laico

Argumentos usados pelos ministros Damares e Ribeiro não são aceitáveis para tantas pessoas, mas é importante, especialmente em razão do Estaco laico, que sejam respeitadas as crenças e os dogmas, desde que não interfiram nas vidas alheias

Publicado em 22 de Julho de 2020 às 05:00

Públicado em 

22 jul 2020 às 05:00
Renata Bravo

Colunista

Renata Bravo

Milton Ribeiro foi empossado como ministro da Educação, com presença virtual de Bolsonaro
Milton Ribeiro foi empossado como ministro da Educação, com presença virtual de Bolsonaro Crédito: Reprodução/TV Brasil
Brasil acima de tudo, Deus acima de todos. Esse é o já conhecido slogan do atual presidente da República. Pensar em um país forte e abençoado é o melhor de todos os mundos. Mas não podemos esquecer que nosso país deve ser laico. E o que isso significa? Que toda e qualquer representação religiosa deve ser respeitada e, além de tudo, que as decisões do Estado jamais podem ser tomadas com base em dogmas e crenças religiosas. E o que está acontecendo no governo Bolsonaro? Exatamente o oposto.
O mais novo ministro da Educação, Milton Ribeiro, (nunca sabemos até quando ele irá durar no cargo, tendo em vista o lamentável histórico da pasta desde 2019) é pastor presbiteriano e, após assumir o ministério, viu alguns vídeos seus virem à tona. Neles, em ambientes de exercício de sua religião, defendeu que há um incentivo nas universidades de “uma prática sem limites do sexo” e se valeu de um artifício clássico, porém nefasto, de culpar a vítima pela violência sofrida dizendo: “O que me preocupa é com a erotização da criança, e a criança então com atitudes e com maneiras e trejeitos que ela vê e imita, provocando pessoas que entendem que a criança está querendo ter algum tipo de relacionamento com ela”.
Não podemos esquecer também da ministra Damares Alves, à frente do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, pastora evangélica que também tem posicionamentos religiosos contrários às crenças e aos estudos da maioria dos pesquisadores e defensores dos Direitos Humanos e de efetivas políticas públicas construídas pelo Brasil durante décadas.
Os argumentos utilizados por Damares e Ribeiro não são aceitáveis para tantas pessoas, mas é importante, especialmente em razão do Estaco laico, que sejam respeitadas as crenças e os dogmas, desde que não interfiram nas vidas alheias e não incorram em delitos. O problema é que eles estão interferindo. E muito. Estão interferindo para piorar a vida de milhares de meninas e mulheres brasileiras, uma vez que crenças religiosas e pessoais estão moldando as políticas públicas do governo federal.
Na última semana, mais um episódio confirmou isso, quando o Brasil se absteve de votar na ONU um relatório do Conselho de Direitos Humanos sobre discriminação de meninas e mulheres, se alinhando a países ultraconservadores, sob o pretexto de que o texto era de defesa do aborto, o que jamais aconteceu, tendo em vista que a prática de aborto no Brasil é criminalizada (salvo pequenas exceções), além de não ser crível relacionar políticas de saúde sexual e reprodutiva com a defesa do aborto pura e simplesmente.
Agir dessa forma é negar o histórico brasileiro de defesa dos direitos humanos e de posicionamento diplomático em busca de composição de conflitos e de garantia da vida.
Do jeito que as coisas andam, Bolsonaro deveria alterar seu slogan para “Meu pequeno Brasil acima de tudo e Eu acima de todos”.

Renata Bravo

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