“Vai um leitinho aí?” Foi assim que Damares Alves, a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos começou um vídeo publicado no último fim de semana, no seu Twitter, com legenda homônima. Segundo ela, deveríamos celebrar com leite o trabalho da “maior ministra que esse país já teve” (se referindo a Tereza Cristina), a fim de “incentivar todo mundo a consumir esse líquido maravilhoso”.
O leite é mais um símbolo que o governo Bolsonaro passou a usar na última semana para demonstrar seu autoritarismo, genocídio, desprezo pelas vidas, já que a imagem do líquido é um dos artifícios utilizados para afirmar de forma criminosa e desumana a inimaginável superioridade de brancos. De forma bem articulada, todos os escalões desse governo agem para transmitir a mensagem do momento e Damares não estaria fora desse teatro.
Em vez de encenar o cinismo do jogo fascista do atual governo federal, Damares deveria investir para colocar o mínimo de dignidade na mesa de mais de 11,5 milhões de mulheres que são mães solo e que assumem sozinhas o sustento de seus filhos. Segundo pesquisa do Instituto Locomotiva, em 31% das casas sustentadas por essas mulheres já faltou dinheiro para comprar produtos de limpeza durante a pandemia, momento que requer, mais do que nunca, higienização dos ambientes para evitar o contágio pelo novo coronavírus. Também é em 35% dessas casas que já faltou comida. Sim, comida. O básico. O mínimo. Não tem sequer o “líquido maravilhoso” pregado por Damares.
Para o enfrentamento da pandemia, Damares tem à disposição R$ 45 milhões. E sabe quanto ela gastou? R$ 2 mil (vou escrever por extenso pra não deixar dúvidas: dois mil reais). Para enfrentar a Covid-19 na perspectiva dos direitos humanos, das mulheres e da “família”, Damares gastou 0,004% do orçamento disponível, um total de nada! A omissão deliberada ignora o fato de que desse total de mães solo, 75% pediram o auxílio emergencial e somente 27% conseguiram; ignora que há aumento de violência doméstica contra as mulheres; ignora que a maioria das profissionais que estão na linha de frente do combate ao novo coronavírus é de mulheres, sendo elas as mais atingidas. O que o ministério faz positivamente? Nada! E não é por falta de dinheiro.
Esse é o jogo que a ministra faz desde o início do governo. Não há investimento em políticas públicas de qualidade, não há gestão de recursos, de políticas, de ações para os mais vulnerabilizados socialmente. Mas essa é uma forma de fazer gestão. Como Damares disse no vídeo, “é o governo Bolsonaro”. Essa é a forma como o governo Bolsonaro atua para gerir as vidas, ou pior, as mortes das brasileiras e dos brasileiros.