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Reality social

BBB20 tem reforçado o mandato da masculinidade

Thelma não traiu Babu. Thelma e Babu sabem o que é sofrer por ser negro. Babu não experimenta a lança que aponta sobre as mulheres. Se tem uma coisa que Thelma tem sido é coerente

Publicado em 15 de Abril de 2020 às 05:00

Públicado em 

15 abr 2020 às 05:00
Renata Bravo

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Renata Bravo

BBB20: Thelma afirma que votaria em Babu
BBB20: Thelma e Babu Crédito: Reprodução/TV Globo
Essa edição do BBB foi marcada principalmente por conflitos de gênero. Logo de início, dos nove participantes homens, seis planejaram destruir a imagem das mulheres que namoravam. Hadson, Petrix, Chumbo, Guilherme, Lucas e Prior acreditaram que, se o Lucas conseguisse “seduzir” alguma participante comprometida, ela seria eliminada.
As mulheres descobriram esse tal “plano” e decidiram, em sua maioria, confrontá-los, sendo que, ou ridicularizaram a situação, ou se omitiram. A casa, então, estava separada entre mulheres e homens – e todos os homens envolvidos foram sendo eliminados de um a um.
Desse grupo, só ficou Prior até poucos dias atrás, que, mesmo dizendo que queria mudar algumas atitudes, manteve condutas agressivas e machistas, chegando a se vangloriar dizendo que gritava com a própria mãe em sua casa e, por isso, ia continuar gritando com as mulheres do BBB. De participantes homens, ficaram só Prior e o ator Babu, de onde surgiu uma forte aliança.
Entre todos os participantes, há apenas dois negros: Babu e a médica Thelma, de onde também surgiu a admiração, o reconhecimento e o compromisso de que, enquanto fosse possível, um não votaria no outro. Isso foi cumprido até no último domingo.
A dinâmica do jogo fez com que Thelma tivesse que escolher entre votar em Babu ou Rafa, influenciadora digital branca, e a escolha foi no ator que não se mostrou nada satisfeito com o voto e retrucou dizendo que não votaria na Thelma e que, inclusive, tinha arranjado uma briga com o seu fiel amigo Prior por isso.
Como justificativa, a médica afirmou que ela e Rafa durante todo o jogo tiveram ideais e alianças muito próximas e que, por outro lado, Babu nem sempre esteve alinhado com ela no reality – destaque para a aceitação e conivência de Babu com o comportamento do grupo masculino da casa. Sobre Thelma está recaindo a cobrança de um posicionamento coerente com relação à raça, mas será que isso é justo? Qual a cobrança imposta ao Babu com relação a gênero?
Ao escolher a lealdade a Prior, Babu tomou partido, dizendo inclusive que entre o amigo e Thelma, colocaria a médica no paredão sem questionar. Prior fazia parte do “plano” que reforçou a moral machista da sociedade e Babu sabia disso. Babu também já deu declarações em apoio ao Lucas, peça-chave para o citado plano machista.
Nessas uniões, o ator não questionou o fato de se aliar a homens brancos, de atitudes e falas agressivas e machistas e que participaram do complô que levou à justa separação da casa. Por que a questão da raça não importou quando se tratava da união de homens e importa para cobrar um posicionamento coerente à única mulher negra do programa?
Raça e gênero não podem se dissociar. Babu enfrenta suas questões de raça e de classe. Thelma, de gênero e de raça. Vejo pessoas falando que ela “já é médica”, então não precisa vencer o jogo. O Babu “já é artista”, então também não precisaria? Usar desses argumentos só reforça o imaginário de que o negro que alcança algo, “já conseguiu demais”.
Thelma conta que era a única negra de sua turma de faculdade, além de ser cotista. Conta que dificilmente é reconhecida como médica, afinal para muita gente é estranho uma mulher negra ocupar essa posição. Nessa disputa entre Babu e Thelma, ela sempre está sendo colocada em segundo lugar. O protagonismo, mais uma vez, está sendo do homem e, quando ele está ameaçado, é na mulher que a culpa toda recai, principalmente na mulher negra.
Thelma não traiu Babu. Thelma e Babu sabem o que é sofrer por ser negro. Babu não experimenta a lança que aponta sobre as mulheres. Se tem uma coisa que Thelma tem sido é coerente – e, ao se posicionar, é taxada de arrogante. Nessa edição marcada por violências contra mulheres, nada mais justo que a Thelma se sinta acolhida e lute por um “lado” que expôs uma ferida da nossa sociedade patriarcal, machista e que tem a mulher negra como a base da pirâmide social, sobre quem recai toda sorte de mazelas.

Renata Bravo

Renata Bravo assina uma das colunas de A Gazeta

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