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Dilemas das mulheres modernas vão além de serem mães R$ 1,99

Questões biológicas, como gerar uma criança, foram sendo transformadas social e politicamente em diferenças naturalizadas, impondo à mulher uma posição inferior nas relações de poder

Publicado em 09/10/2019 às 05h00
Atualizado em 09/10/2019 às 05h01
Dilemas das mulheres modernas. Crédito: Divulgação
Dilemas das mulheres modernas. Crédito: Divulgação

Semana passada, para reforçar a importância de espaços como essa coluna, tratei sobre a reação de homens quando mulheres se expressam publicamente em espaços que “pertencem a eles”. No mesmo dia, recebi uma resposta dizendo que a maior força das mulheres é o retorno para o lar, pois as mães não estão mais cuidando 24 horas dos filhos. O leitor me indicou que as mulheres são responsáveis pelo tráfico de drogas e por problemas psicológicos de crianças, sendo “mães 1,99”, por não estarem com suas famílias e sim “nas redações escrevendo temas feministas”.

Me alegra essa possibilidade de diálogo, especialmente em tempos cada vez maiores de extremismos e polarizações. Refleti que, ainda em 2019 ecoa a fala de Telêmaco para Penélope ao dizer “mãe, volte para seus aposentos e retome seu próprio trabalho, o tear e a roca”.

À mulher, desde sempre foi imposta a função de cuidar, amar, maternar, manter o equilíbrio das relações privadas para que o público se mantivesse equilibrado. Questões biológicas, como gerar uma criança, foram sendo transformadas social e politicamente em diferenças naturalizadas, impondo à mulher uma posição inferior nas relações de poder. Receber a culpa dos problemas da sociedade e de doenças que acometem crianças é mais um ônus imposto às mães. Muitos esperam que elas se dediquem integralmente aos cuidados da família. Assim, reforça-se que a mulher deve se manter no privado, sendo somente um receptáculo gerador de crianças.

Valemos R$ 1,99 e, ainda assim, quase 5,5 milhões de crianças não possuem o nome do pai no registro de nascimento; 15,3% das famílias totais brasileiras são formadas por uma mãe solteira, separada ou viúva e seus filhos; grande parte das mulheres, além de ser responsável pelo cuidado do seu próprio lar e de sua família, ainda responde pelo cuidado dos lares alheios como domésticas, das crianças alheias como babás, dos doentes alheios como enfermeiras.

“Cadê as mães?”, fui questionada. Talvez muitos não saibam, afinal a história das mulheres sempre foi silenciada, mas estamos assinando 72% dos artigos científicos publicados no Brasil, apesar de ocuparmos poucos postos de liderança; estamos nos dividindo em rotinas múltiplas de trabalhos remunerados e não remunerados para cuidarmos dos filhos com e sem pais; estamos sendo assassinadas todos os dias; estamos sendo afastadas do mercado de trabalho justamente pelo “ônus” de sermos mães; e, sim, estamos nas redações escrevendo artigos feministas, ainda bem.

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