Se olharmos para os grandes avanços da humanidade, veremos que foi sempre a capacidade de agir juntos que abriu caminhos para sociedades mais justas, prósperas e resilientes. É o que podemos chamar de lógica do “nós”: o reconhecimento de que o progresso coletivo depende da contribuição de cada pessoa em seu espaço de atuação, no trabalho, na vida comunitária, na política e nas escolhas do dia a dia.
Essa lógica não significa anular o “eu”, a busca pelo progresso individual. Na verdade, ela reforça o quanto o indivíduo pode prosperar se viver numa sociedade em que todos prosperem.
Recentemente, circulou nas redes sociais um discurso em que o primeiro-ministro de Singapura, Lawrence Wong, aborda esse tema. Ele disse: “Para manter Singapura funcionando, devemos ser uma sociedade 'nós primeiro’. Porque, se todos pensarem apenas no 'eu' e colocarem o 'eu' à frente do 'nós', então estamos acabados. A sociedade vai se desgastar, e as coisas vão desmoronar”.
E prosseguiu: “Mas, se cada pessoa fizer a sua parte para o “nós”, contribuindo e cuidando um do outro, então o 'eu' também prosperará e florescerá. Porque quando o todo é forte, cada um de nós se torna mais forte também”.
Temos, neste momento, a oportunidade de aplicar a lógica do “nós primeiro" ao Brasil. E seria uma pena desperdiçar essa chance. Nossos problemas atuais — fiscal, produtividade, infraestrutura, ambiental, educação, saúde, segurança, para citar alguns — pedem que todos sejamos parte da solução, inclusive com alguma dose de sacrifício individual ou setorial.
Nossa história tem exemplos de conquistas e avanços que obtivemos quando trabalhamos unidos. O Sistema Único de Saúde, o SUS, nasceu do esforço coletivo de médicos, sanitaristas, gestores públicos e movimentos sociais. Não foi obra de um indivíduo, mas de uma visão comunitária: Saúde como direito de todos.
O mundo corporativo oferece aprendizados semelhantes. Quando empresas abraçam a lógica da colaboração, crescem de maneira sustentável. Startups que nascem em ecossistemas de inovação, caso dos polos de Florianópolis e Recife, prosperam porque empreendedores compartilham ideias, conhecimento e investimentos. Essa troca coletiva é o que permite que negócios escalem e gerem impacto.
Já citei nesse espaço as cooperativas agrícolas, que transformaram pequenas propriedades em motores de exportação e desenvolvimento local. Ao unir esforços, produtores ganharam escala, acesso a crédito e tecnologia, além de segurança para enfrentar crises.
Sem falar na nossa alma solidária, sempre presente em situações de emergência. No ano passado, quando enchentes devastaram cidades do Rio Grande do Sul, a mobilização da sociedade civil, governo, empresas e comunidades de todo o país garantiu ajuda rápida a milhares de famílias. Foram donativos, abrigos improvisados e voluntários que mostraram que, diante de desafios enormes, ninguém vence sozinho.
Também podemos olhar para fora. Nos países nórdicos, o pacto coletivo por um Estado de bem-estar robusto transformou sociedades pequenas em referências globais de desenvolvimento humano. Lá, a contribuição de cada cidadão em troca de serviços públicos de qualidade criou um ciclo virtuoso: mais igualdade, mais confiança social e mais prosperidade.
Sociedades individualistas enfrentam polarização, desconfiança sistêmica e dificuldades em mediar crises. Tenho insistido, inclusive, na importância da participação de todos na vida política, não só nas eleições. No Brasil de hoje, assumir responsabilidades coletivas significa votar com consciência, cobrar políticas públicas, cumprir deveres fiscais, respeitar leis e atuar de forma ética nos negócios.
Um país mais justo e desenvolvido não é fruto apenas de grandes projetos ou lideranças visionárias. Ele se constrói no cotidiano e se fortalece quando cada cidadão entende que a sua responsabilidade individual faz parte de algo maior: o “nós primeiro".