Em meio a um cenário global turbulento — com guerras e tensões comerciais — o Brasil se destaca por atributos singulares. Somos uma potência agroambiental, líder mundial em exportação de commodities agrícolas, e nossa matriz energética é predominantemente renovável. Contamos, ainda, com um vasto mercado interno (mais de 210 milhões de habitantes) e uma infraestrutura portuária robusta que liga o país ao mundo.
Num contexto complexo como o atual, com guerras, conflitos e tensões, tudo o que o investidor quer é um país em que as condições sejam relativamente estáveis para poder aportar o capital. Esses fatores, além de incentivos recentes, atraíram investidores internacionais de volta: em 2025, já foram aplicados quase R$ 25 bilhões no mercado secundário de ações brasileiro.
No entanto, esse potencial esbarra em entraves internos. A dívida pública do Brasil segue em níveis muito altos. O FMI projeta que ela atingirá 92% do PIB em 2025, patamar mais elevado que todos os nossos pares emergentes (média de 74,8%) e só abaixo de grandes economias, como a China.
O custo dessa fragilidade é agravado pelos juros astronômicos. A Selic está em 15% ao ano, o que coloca o Brasil em segundo lugar global em taxa de juros real (9,53%), atrás apenas da Turquia.
Diante desse dilema, a saída é clara: reformas estruturais e coordenação política. O protagonismo cabe ao Executivo, que deve pautar uma agenda de ajuste: desde aprimorar o arcabouço fiscal e mexer nas vinculações orçamentárias, até avançar em reformas tributária, administrativa e de desestatização.
Ao mesmo tempo, é papel do Congresso debater essas propostas com transparência, ouvindo a sociedade civil e consultando o Judiciário, para garantir a legalidade, e se alinhando ao setor empresarial, para dar viabilidade prática.
Se não houver esse esforço coordenado, o Brasil corre o risco de permanecer no voo curto. Nesse cenário, defendem-se apenas interesses próprios, e o país estagna — como uma aeronave que nunca decola para voos mais longos. Em vez de aproveitar a janela global de oportunidades (descarte de combustíveis fósseis, relocalização de cadeias produtivas, demanda por alimentos, energia e matérias-primas), ficaremos flutuando à deriva.
É hora de reagir coletivamente. Temos grandes possibilidades de sermos protagonistas: potência agrícola, líder em energia renovável, economia diversificada, com reservas internacionais robustas. Mas precisamos transformar potencial em realidade concreta. Executivo, Legislativo, Judiciário, setor produtivo e toda a sociedade – cada um tem seu papel nessa tarefa.
A responsabilidade institucional é nossa trilha de decolagem. Convocamos todos a refletir sobre esse compromisso. Afinal, o futuro do país não aceita meia altitude.