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Economia

Por que temos de falar dos gastos do governo

Colocar as contas públicas em dia exige decisões duras. O ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga apanhou muito por dizer que o salário mínimo não poderia mais ser reajustado acima da inflação, como acontece há anos. É difícil dizer o que ele disse

Publicado em 14 de Maio de 2025 às 02:00

Públicado em 

14 mai 2025 às 02:00
Rafael Furlanetti

Colunista

Rafael Furlanetti

Na semana passada, o Banco Central elevou a taxa básica de juros a 14,75%, o nível mais alto em 19 anos. Tomou a medida porque o Brasil está com um problema nas suas contas públicas. Quem é empreendedor sabe o que isso significa: juros altos encarecem o custo de tomar dinheiro emprestado para investir nos negócios, desaceleram o volume de vendas, fazem a economia girar mais devagar. É um assunto difícil, mas que é nosso e precisa ser tratado, pois prejudica a todos.
Mas por que os juros são tão altos no Brasil?
Se você pede um empréstimo — tanto pessoal quanto para a sua empresa —, o banco avalia suas condições financeiras e o risco de inadimplência, ou seja, de você não pagar o que deve. Quanto maior o risco, maiores serão os juros. O governo passa pelo mesmo processo. Todos os dias, o governo se financia no mercado, que leva em conta esse risco de inadimplência olhando para as contas públicas.
Hoje, quando faz esse exame, o mercado não vê coisas boas. O governo está gastando mais do que arrecada, o que faz com que a dívida pública esteja num nível alto para um país emergente como o Brasil. Para piorar, a perspectiva é de que a dívida continue subindo porque o governo não demonstra intenção de reduzir o ritmo de gastos. Se risco de inadimplência cresce, o mercado cobra juros mais altos para emprestar dinheiro.
Assim, enquanto o governo não parar de gastar além da conta, os juros serão altos. Um programa de redução de gastos é uma necessidade urgente do Brasil.
Colocar as contas públicas em dia exige decisões duras. Recentemente, o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga apanhou muito por dizer que o salário mínimo não poderia mais ser reajustado acima da inflação, como acontece há anos. É difícil dizer o que ele disse. Seria mais bonito e confortável defender que o salário mínimo siga sendo reajustado acima da inflação, pois isso beneficia as pessoas mais pobres.
Mas precisamos ter responsabilidade e pensar pelo outro lado. O salário mínimo é o indexador dos gastos da Previdência Social, a maior despesa do governo, que já supera R$ 1 trilhão por ano. Cada um real a mais no salário mínimo significa R$ 400 milhões de reais a mais no gasto do governo — que já está com a contas em desordem.
O aumento no salário mínimo é um fator que amplia os gastos públicos — e existem centenas de outros que também precisam ser analisados com atenção. O fato é que, quanto mais o governo gastar, mais altos serão os juros. Quanto mais altos os juros, mais o governo gasta mais para se financiar no mercado.
Selic, a taxa básica de juros brasileira, está numa trajetória de alta devido à inflação
Selic, a taxa básica de juros brasileira, está numa trajetória de alta devido à inflação Crédito: A Gazeta/Canva Pro
Por outro lado, juros menores fariam com que o governo tivesse mais dinheiro para investir em áreas que beneficiam a população e impulsionam o desenvolvimento, como Educação, Saúde e Segurança. No setor privado, juros mais baixos reduziriam o custo de financiamento, o que estimula o investimento em empresas, na produção, o que gera mais emprego e renda, que beneficia a todos.
Por isso, é crucial que estejamos atentos e participemos do debate sobre as receitas e os gastos públicos, em nível municipal, estadual ou federal; do Executivo, do Legislativo ou do Judiciário. O dinheiro que sustenta essa estrutura é de todos nós. A forma como ele é gasto pode nos beneficiar ou nos prejudicar.

Rafael Furlanetti

Capixaba de São Gabriel da Palha, é sócio e diretor de Relações Institucionais da XP e presidente da Ancord (Associação Nacional das Corretoras e Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários, Câmbio e Mercadorias). Escreve quinzenalmente neste espaço sobre empreendedorismo, inovação e negócios ao público do Espirito Santo

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