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Crítico de cinema e colunista de cultura de A Gazeta

"Tribes of Europa", da Netflix, tem ótimas ideias mal exploradas

Vendida como sendo dos mesmos produtores de "Dark", "Tribes of Europa" chega à Netflix com um futuro pós-apocalíptico cheio de boas histórias pouco desenvolvidas

Vitória
Publicado em 17/02/2021 às 23h33
Atualizado em 17/02/2021 às 23h33
Série alemã
Série alemã "Tribes of Europa", da Netflix. Crédito: Gordon Timpen/Netflix

“Tribes of Europa”, que chega à Netflix nesta sexta-feira (19), tem sido vendida como “série da produtora de ‘Dark’”. De fato, ambas as séries alemãs são produzidas pela W&B Television, mas as semelhanças acabam por aí. Ao contrário de “Dark”, a nova série alemã da Netflix não tem viagens no tempo ou complexos paradoxos temporais - “Tribes of Europa” é uma ficção-científica de boa ambientação e narrativa linear.

Na trama, o mundo foi devastado pelo “Dezembro Sombrio” de 2029, um apagão global que acabou com as antigas organizações e fez com que a população se organizasse em tribos com suas próprias crenças e hábitos culturais. A série se passa em 2074, mas pouco sabemos acerca do ocorrido além de que ele teria sido motivado pelo excesso de tecnologia. Justamente por isso, enquanto algumas pessoas desenvolveram fascínio pela tecnologia antiga, algumas tribos como os Orígenes abriram mão de qualquer contato com a tecnologia do antigo mundo.

Os Orígenes são o ponto de partida de “Tribes of Europa”. Logo conhecemos Liv (Henriette Confurius), Kiano (Emilio Sakraya, de “Warrior Nun”) e Elja (David Ali Rashed), os três filhos dos fundadores da tribo. Durante uma caça na floresta, eles presenciam a queda de uma nave atlantiana, algo que nunca viram antes, e resgatam o piloto da nave. O problema é que eles não foram os únicos a ver a queda - os Corvos, uma tribo no estilo “Mad Max”, querem roubar a tecnologia dos atlantianos para aumentar ainda mais seu controle na Europa. Eles, então, atacam a tribo e os irmãos acabam separados pelo destino.

Neste ponto, “Tribes of Europa” tem estrutura narrativa similar à de “Game of Thrones”, com histórias paralelas que, imaginamos, se encontrarão futuramente. É com os irmãos que conhecemos aspectos diferentes do mundo criado pela série. Liv acaba junto aos Escarlates, uma associação militarizada que busca a "paz entre as tribos". Kiano, por sua vez, acaba junto aos Corvos na maior cidade da Europa. Por último, Elja vai se aprofundando no submundo do que restou do continente em busca de respostas não apenas para o que aconteceu com sua família, mas também para o Dezembro Sombrio.

Série alemã
Série alemã "Tribes of Europa", da Netflix. Crédito: Gordon Timpen/Netflix

As três jornadas têm altos e baixos, mas a de Elja é a mais constante. O motivo é que o caçula ganha um companheiro de viagem, Moses (Oliver Masucci, o Ulrich de “Dark”), um sujeito que sobrevive de sucata, consertos e picaretagens. A relação dos dois diverte justamente por não haver confiança alguma entre eles. Os dois atores possuem química em cena e criam uma boa dinâmica - os diálogos são ótimos e funcionam até como um alívio cômico em uma série bastante sisuda.

Pelo menos nos seis episódios da primeira temporada (com cerca de 40 minutos cada), a série subaproveita os talentos de Emilio Sakraya. É Kiano que ganha as melhores cenas de ação, mas o jovem ator, com formação de karatê e kung-fu, ainda é pouco aproveitado. Para completar, a trama de Liv é a que mais movimenta o arco principal, mas, ainda assim, é a que traz menos novidades estéticas ou narrativas, o que significa que passamos um bom tempo acompanhando um arco não muito interessante.

Série alemã
Série alemã "Tribes of Europa", da Netflix. Crédito: Gordon Timpen/Netflix

“Tribes of Europa” se destaca na criação de mundo. A Europa da série é multicultural, com vários idiomas e pessoas vindo de várias ex-nações. Os atlantianos, imagino, sejam os americanos, os povos que vêm do Oceano Atlântico; o que aconteceu com eles, por que eles ainda têm tecnologia enquanto os europeus não? Civilizações asiáticas também são citadas, mas o tempo todo em tom de mistério. Não explorar outros continentes, a princípio, ajuda a manter o mistério, mas a audiência logo vai querer respostas.

As cidades devastadas e abandonadas em muito lembram os cenários dos jogos “The Last of Us”, com a natureza reconquistando o espaço que lhe foi tomado em meio à destruição. É também interessante notar as diferenças estéticas em cada núcleo - os Corvos, por exemplo, habitam o que restou de Berlim, um cenário urbano, mas esteticamente lembram “Mad Max” (até em algumas práticas).

Série alemã
Série alemã "Tribes of Europa", da Netflix. Crédito: Gordon Timpen/Netflix

A impressão que fica é de que a primeira temporada de “Tribes of Europa” se encerra na metade, ironicamente quando a série engrena. Os primeiros episódios funcionam como base de sustentação para a trama que ganha força lá pelo quinto, momento em que o espectador é finalmente fisgado. Quando o sexto (e último) episódio tem início, não há tempo o suficiente para concluir satisfatoriamente tudo o que foi iniciado até ali. Um bom gancho, admito, mas ainda assim frustrante.

O texto tem elementos de diversas outras séries e demora para encontrar uma identidade própria. Isso, porém, não faz da série algo ruim, apenas um produto de poucas novidades na já desgastada fórmula de mundo pós-apocalíptico. Há boas influência de jogos, séries e filmes, além de um potencial enorme a ser desbloqueado, mas a temporada chega ao fim quando o roteiro começa a explorar, mesmo que superficialmente, essas possibilidades. Resta torcer para uma segunda temporada com estrutura diferente, uma narrativa que, com todo o cenário já posto, explore a força do mundo criado por ela.

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Série alemã "Tribes of Europa", da Netflix. Crédito: Gordon Timpen/Netflix

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