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Crítico de cinema e colunista de cultura de A Gazeta

Série "Messiah", da Netflix, questiona o que aconteceria com Jesus hoje

Série lida com a possibilidade da volta de Jesus e suas consequências em um cenário político internacional

Publicado em 06/01/2020 às 04h00
Atualizado em 06/01/2020 às 04h00
Mehdi Dehbi como Al-Masih em
Mehdi Dehbi como Al-Masih em "Messiah". Crédito: Netflix/Divulgação

Existe o questionamento recorrente de como Jesus seria recebido hoje em dia. Seria compreendido como um salvador, uma ameaça comunista ou apenas como mais um entre tantos picaretas que usam a fé dos outros para benefício próprio? “Messiah”, nova série original da Netflix, cria essa situação em um thriller político/policial com doses às vezes exageradas de religião.

Criada por uma equipe com experiência em dramas religiosos, “Messiah” tem início em meio a conflitos na Síria, onde uma tempestade de areia de proporções bíblicas surge “convocada” por um discurso do homem que passa a ser conhecido como Al-Masih (Mehdi Dehbi). Quando tudo passa, ele é tratado por alguns como um novo profeta e guia seus seguidores pelo deserto até a fronteira com Israel, lugar em que, obviamente, não é bem recebido.

Enquanto isso, nos EUA, a agente da CIA Eva Geller (Michelle Monaghan) acompanha os acontecimentos. Para a agência de inteligência, Al-Masih pode ser uma ameaça, um novo líder muçulmano a formar um exército e se voltar contra o ocidente. A título de curiosidade, Al-Masih, na cultura islâmica, é o nome dado aos falsos profetas que Maomé previu, um nome literalmente traduzido como “o Messias Impostor” e com o qual o Anticristo se anuncia. 

Nos primeiros episódios acompanhamos o pregador realizando alguns “milagres”. Não fica claro, porém, se são armações ou se Al-Masih realmente tem poderes. O roteiro faz um trabalho inicialmente interessante com o personagem ao não identificá-lo diretamente a uma religião. Ao invés disso seu discurso mistura elementos de diversos credos para construir uma narrativa moderna, pacifista, de amor ao próximo, ou seja, palavras que reúnem o melhor de cada religião. Mas como o mundo receberia esse discurso?

Com o passar dos episódios, porém, a trama ganha novos contornos. Al-Masih vai para os EUA, terra do encantamento e da fama instantânea, mas também centro de praticamente toda intriga política mundial. Novas peças entram no tabuleiro, o que altera a dinâmica inicial. Da mesma forma como ocorreu na Síria, o pregador se torna uma celebridade em solo norte-americano, onde também realiza seus milagres.

A série lida com as fake news e a comunicação nos tempos de hoje - a CIA, por exemplo, se preocupa o tempo todo com o que está sendo publicado nas redes sociais. Da mesma forma, a fama do suposto salvador vai aumentando à medida que seus feitos são compartilhados por uma personagem.

Michelle Monaghan em
Michelle Monaghan em "Messiah". Crédito: Netflix/Divulgação

A premissa é interessante, a execução nem tanto. “Messiah” tem roteirização e estética de séries de TV aberta - mesmo que a narrativa contínua fuja dessa característica. A direção de James McTeigue (em seis dos 10 episódios) não traz ousadia ou novidades e o texto esbarra em clichês dos gêneros pelos quais passeia. Eva (atenção ao nome), claro, esconde um segredo; enquanto isso, o soldado israelense Aviram (Tomer Sisley) lida com seus demônios e sua falta de fé. 

“Messiah” usa a fórmula de sucesso de “Homeland” (a personagem “quebrada”, o antagonista de caráter dúbio, o drama familiar...) e de tantos outros thrillers sobre política internacional, mas tem seu tempero próprio. Durante todos os 10 episódios, ela entrega elementos que fazem o espectador acreditar que Al-Masih é, sim, uma segunda encarnação de Cristo, mas também apresenta pistas que dizem o contrário; a escolha de crer ou não, na maior parte do tempo, cabe a quem assiste. O problema é que a série, seja o qual for o lado escolhido pelo público, deixa evidente seu aspecto religioso e coloca seus personagens sempre em busca de redenção, de um sentido a ser dado pela religião que lhes "falta" ou pelo deus em que deixaram de acreditar - seja pela falta de fé ou por sua distorção, a mensagem cristã da série permanece.

Tentando focar nos dramas pessoais de personagens secundários, mas sem desenvolvê-los, o roteiro acaba deixando de lado as possibilidades interessantes abertas por sua premissa e prolonga por muito tempo a questão inicial sobre Al-Masih. “Messiah” não chega a ser ruim, é apenas frustrante. Ao fim, a série se torna desinteressante ao adotar a pegada de filme cristão, mas com certeza encontrará um público cativo que encerrará a maratona já ávido por uma ainda não confirmada segunda temporada.

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