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Crítico de cinema e apaixonado por cultura pop, Rafael Braz é Jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

"O Verão Que Mudou Minha Vida", da Amazon, busca conforto nos clichês

"O Verão Que Mudou Minha Vida" acompanha uma jovem se descobrindo no auge da adolescência ao lado de amigos de infância. Série adapta livro homônimo da criadora dos filmes "Para todos os garotos que já amei"

Vitória
Publicado em 23/06/2022 às 16h20
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Série "O Verão que Mudou Minha Vida", da Amazon Prime Video. Crédito: Amazon/Divulgação

Chega a ser uma surpresa “O Verão Que Mudou Minha Vida” ser um lançamento da Amazon e não da Netflix. A séria leva para as telas o primeiro livro da trilogia verão de Jenny Han, autora que ganhou força nas telas com a adaptação pela Netflix de seus livros da série “Para Todos os Garotos que Já Amei” e que se encaixa no perfil de dramédias românticas adolescentes nas quais a Netflix tem apostado - é bem verdade que a Netflix prefere esses conteúdos em filmes, o que talvez tenha levado a nova adaptação de Han para a concorrência.

“O Verão Que Mudou Minha Vida” é, desde o início, uma narrativa confortável. A série acompanha Belly (Lola Tung) ansiosa para o verão; muita coisa mudou para a jovem às vésperas de completar 16 anos - a menina tímida, de óculos e aparelhos nos dentes cresceu e se tornou “bonita”, como diz o título original do livro e da série, “The Summer I Turned Pretty” (“O verão em que fiquei bonita”, em tradução literal).

Ao lado da mãe, Laurel (Jackie Chung), e do irmão, Steven (Sean Kaufman), Belly sempre passa os verões em um badalado balneário, na casa de Susannah (Rachel Blanchard), melhor amiga de Laurel e mãe de dois jovens um pouco mais velhos que Belly, Jeremiah (Gavin Caselegno) e Conrad (Christopher Briney), por quem a jovem tem uma paixão desde o início da adolescência. Reunidos ali durante o verão, todos são uma grande família e se tratam como tal, dividindo alegrias e problemas diários.

Tudo isso é apresentado em menos de cinco minutos no primeiro episódio em diálogos superexpositivos, mas o didatismo, mesmo que não vá embora de vez, é bem reduzido no resto da série. Belly se torna o centro das atenções, mas todos os personagens têm seus arcos até bem desenvolvidos, uma mudança em relação ao livro.

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Série "O Verão que Mudou Minha Vida", da Amazon Prime Video. Crédito: Dana Hawley

Laurel, por exemplo, ganha profundidade, vira escritora de relativo sucesso e ganha um nemesis/interesse amoroso. Jeremiah é apresentado como bisexual, mudança proposta pela própria autora, que também assina como showrunner da série. Há outras mudanças, como a maior presença de Taylor (Rain Spencer), um arco maior para Steven e também uma mistura de acontecimentos dos outros livros para trazer mais conflitos para a primeira temporada. Se o que você procura é um monte de jovens bonitos às voltas com sexualidade e descobertas em um belo balneário, não precisa mais procurar.

“O Verão Que Mudou Minha Vida” é cheia de clichês do gênero e tem plena ciência disso. Por isso, o texto tenta trabalhar seus personagens para que o público divida com eles as angústias e as conquistas - o roteiro é inteligente o suficiente para brincar com as expectativas do público, conduzindo-o pela cabeça de uma adolescente em formação e suas constantes dúvidas.

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Série "O Verão que Mudou Minha Vida", da Amazon Prime Video. Crédito: Peter Taylor

A ideia de trazer para a primeira temporada arcos que só existem no segundo livro de Jenny Wan dá estofo e coloca o roteiro sempre em movimento, o mesmo acontece com os arcos antes inexistentes, com o de Laurel, criando um núcleo adulto na série com conflitos que vão além de suas relações com os jovens protagonistas. Essa busca por um protagonismo mais nostálgico também se faz presente na trilha sonora, que mistura Taylor Swift e Olivia Rodrigo, por exemplo, à banda Wheatus, sucesso com a música “Teenage Dirtbag” na trilha sonora do filme “O Otário” (2000), que veio na onda do sucesso de "American Pie" anos antes.

Apesar de gerar o conforto que busca oferecer, “O Verão Que Mudou Minha Vida” sofre com algumas escolhas de seu texto. Alguns conflitos são exagerados, outros são solucionados de forma muito fácil (ou talvez seja assim na adolescência) e algumas viradas parecem forçadas. A principal delas é repentina e o roteiro só começa a trabalhá-la no momento em que precisa dela - vale ressaltar, porém, que, mesmo previamente mal trabalhada, tal virada é ótima para levar a narrativa por outros caminhos e possibilidades.

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Série "O Verão que Mudou Minha Vida", da Amazon Prime Video. Crédito: Dana Hawley

Jenny Han entende o mundo em que busca mergulhar, recheando o texto de memórias de sua adolescência e tornando a série levemente anacrônica - os jovens usam pouco smartphone, trocam poucas mensagens, tudo é mais físico e presencial. Em um mundo mais conectado, por exemplo, ninguém se surpreenderia com as mudanças de Belly, pois todos já teriam visto em suas redes sociais. Esse anacronismo dá à série um clima menos conectado e mais bucólico que combina com o balneário de Cousins, em Massachusetts.

“O Verão Que Mudou Minha Vida” não tenta reinventar ou subverter uma fórmula sabidamente funcional. Porém, a série se repete mais do que o necessário e preenche a cartela de bingo dos dramas adolescentes até com sobras. É uma série feita com cuidado, com um ótimo casting, bons personagens, mas, em sua busca pelo confortável, assume o risco de ser considerada “mais do mesmo”. Ainda assim, é uma aposta interessante da Amazon em um conteúdo que sua principal concorrente explora muito bem há mais tempo.

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