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Crítico de cinema e apaixonado por cultura pop, Rafael Braz é Jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

Novo "Duna" é espetacular, mas também um pouco frustrante

Adaptação do clássico de ficção científica de Frank Herbert chega aos cinemas. Obra é uma aventura espacial cheia de histórias que não cabem em um filme só

Vitória
Publicado em 20/10/2021 às 02h42
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Filme "Duna", de Denis Villeneuve. Crédito: Warner/Divulgação

O “Duna” de David Lynch é uma das grandes frustrações de uma geração. Lançado em 1984, 19 anos após o livro de Frank Herbert, o filme transformou as mais de 500 páginas do material original em uma narrativa de três horas (2h15min na versão editada). A jornada de Paul, de nobre mimado a um líder revolucionário, é problemática, acelerada e contada de maneira pouco interessante e confusa para quem não leu o livro. As comparações eram inevitáveis com o universo “Star Wars”, que ironicamente bebeu muito na fonte do livro de Herbert (e, diz a lenda, do filme nunca feito de Jodorowski). Ainda hoje, Lynch considera “Duna” seu único fracasso.

Apesar de uma série no início dos anos 2000, “Duna” ficou no limbo de Hollywood até a notícia de que Denis Villeneuve dirigiria uma nova adaptação para o clássico da ficção científica. Villeneuve vinha de “Blade Runner 2049” (2017) e “A Chegada” (2016), dois filmes elogiadíssimos por público e crítica ainda que não tenham sido sucessos de bilheterias, e parecia o encaixe perfeito para dar nova vida ao livro de Herbert nas telas.

“Duna” finalmente chega aos cinemas e o resultado é uma mistura de deslumbre e frustração. Denis Villeneuve entende a grandiosidade não apenas narrativa do livro de Herbert, mas também todo o mix de referências ecológicas, religiosas e geográficas que ganham vida na tela com detalhes que só os fãs do livro vão entender, mas também funcionando perfeitamente para os não iniciados. 

Timothée Chalamet, como se sabe, vive Paul Atreides, o jovem nobre que viverá a sua jornada de herói. O pai de Paul, o duque Leto (Oscar Isaac), é enviado para comandar o planeta Arrakis, única fonte de uma valiosa especiaria no universo, no lugar dos depostos e vilanescos Harkonnens, que antes comandavam o local e não estão felizes com a perda de poder. Paul vem sendo treinado por sua mãe, Lady Jessica (Rebecca Ferguson), uma mulher poderosa e física e mentalmente, possuindo até alguns poderes psíquicos, e também pelos leais guerreiros/professores Duncan (Jason Momoa) e Gurney (Josh Brolin).

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Filme "Duna", de Denis Villeneuve. Crédito: Warner/Divulgação

Como todo bom adolescente perturbado perto de entender sua missão de vida, Paul tem tido sonhos e eles normalmente envolvem uma misteriosa jovem fremen (Zendaya), nativa de Arrakis e também a responsável por nos apresentar aquele mundo na narração que abre o filme. Como dito no parágrafo inicial, os não iniciados na obra de Herbert sofriam com o filme de Lynch apesar de toda exposição do texto do filme. O “Duna” de Villeneuve é mais orgânico, mesmo que ainda exagere na exposição em alguns diálogos.

O grande mérito do novo “Duna” é ser ambicioso o tempo todo. O filme faz com que o espectador se sinta parte daquele universo seco e perigoso, sensação transmitida ao público em cada tomada aberta das dunas ou a cada possível aparição do monstruoso shai hulud. O funcionamento daquela sociedade é apresentado gradualmente, de maneira natural - com o caminhar da narrativa aprendemos sobre eles da mesma maneira que os Atreides aprendem.

O roteiro de Villeneuve, Eric Roth e Jon Spaihts reduz a história a seus núcleos principais, o que funciona bem, e cresce nos momentos certos. Há um toque de jogos políticos por poder, uma trama que se revela aos poucos, e também há muito de ópera espacial quando parte para a aventura, a essência de “Duna”. Não se deixe enganar pelas questões religiosas e filosóficas, o texto é uma clássica história de um “escolhido” para salvar um povo e liderá-los em uma revolução; Paul é um “white savior” com uma roupagem de ficção científica.

“Duna” é um espetáculo grandioso. Denis Villeneuve entende o que tem em mãos e cria um universo visualmente espetacular, com uma riqueza de detalhes incrível e um trabalho impecável de design de produção. A direção de fotografia de Greig Fraser também é ótima, mesmo muito marrom - estamos no deserto, afinal de contas. A música de Hans Zimmer dá o tom da grandiosidade de uma aventura épica e ajuda na tensão, assim como todo o trabalho de mixagem/edição de som do filme, que usa a manipulação som até como recurso narrativo em alguns momentos.

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O temido shai hulud de "Duna" já virou meme. Crédito: Warner/Divulgação

O elenco é composto por um festival de estrelas, com rostos conhecidos por todos os lados e em atuações interessantes. Momoa garante um alívio cômico e também um afeto, afinal Duncan é o único “amigo” de Paul. Oscar Isaac parece carregar o mundo nas costas como o duque que entende haver algo maior nas ordens do imperador, mas não ousa questioná-las. Stellan Skarsgard surge grotesco e sinistro como o Barão, uma espécie de coronel Kurtz com superpoderes. E Zendaya?

Bem, é nesse aspecto que reside um dos problemas de “Duna”. Chani, a fremen vivida por Zendaya, aparece pouco, quase como uma participação especial, o que é obviamente justificado pelo tamanho da história, o que torna imprescindível que “Duna” tenha no mínimo uma continuação. Não é à toa que o filme se encerra com a personagem dizendo “isso é só o começo”.

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Filme "Duna", de Denis Villeneuve. Crédito: Warner/Divulgação

Villeneuve opta pela cadência narrativa para contar as histórias daquele universo de maneira que se possa sentir o peso delas. O cineasta trabalha com calma não apenas na criação de mundo, mas também no desenvolvimento de seus personagens. Assim, apesar de mais de duas horas e meia de filme, “Duna” acaba antes do esperado, sem um clímax, quase como “O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel” (2001), o que para os fãs do livro não será um problema. A falta de recompensa, porém, pode afastar o público casual.

Como o já citado espetáculo visual que é, “Duna” é, sim, melhor visto em uma tela grande, mas qual filme não é? Se resolver assistir a ele de outra forma, o faça ao menos com o volume alto ou um bom fone de ouvido que o transporte para o universo criado por Frank Herbert, sonhado por Jodorowski e levado às telas por Denis Villeneuve.

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