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Crítico de cinema e colunista de cultura de A Gazeta

André Prando: "deveríamos rever costumes, nos importar mais com os outros"

Lançando o EP "Calmas Canções do Apocalipse", gravado em casa durante o isolamento social, músico fala sobre o disco, a rotina em casa, a produção musical durante esse período e sobre "Final Fantasy VII Remake"

Publicado em 15/05/2020 às 06h00
Atualizado em 15/05/2020 às 06h00
Músico capixaba André Prando
Músico capixaba André Prando. Crédito: Luara Zucolotto/Divulgação

André Prando é inquieto. O músico capixaba está sempre produzindo e tocando por aí - ele estava, inclusive, em turnê do disco "Voador" (2018) quando a pandemia do coronavírus estourou. Isolado com a esposa, Luara, e os gatos, Chapado e Larika, no Centro de Vitória, onde vive, o músico, como artista sensível que é, sentiu a necessidade de colocar para fora todo o mix de sentimentos que povoavam sua mente nesse período. O resultado é o EP "Calmas Canções do Apocalipse", lançado nesta sexta (15) nas plataformas digitais.

A intenção, segundo ele, era "produzir canções tranquilas, positivas e reflexivas, inicialmente no formato voz e violão". Durante a produção, porém, as músicas foram ganhando novas camadas e o resultado final é interessantíssimo. Numa versão mais lo-fi, Prando contou com arranjos de amigos, cada um gravando de sua casa, para entregar as músicas que compõem o EP.

"Calmas Canções para o Apocalipse" tem três músicas, duas autorais e uma versão para "Clamor no Deserto", de Belchior. Prando gosta de enfatizar que foi uma produção em casa, não em um home studio. "Eu tenho um computador, uma placa de som simples, os instrumentos, um par de caixas de som e, principalmente, uma cabeça inquieta", afirma.

Não há tratamento acústico e, ouvindo com fones, percebe-se ruídos externos. "Fiz no nosso quarto/escritório aqui no apartamento, muito ruído da rua foi captado durante as gravações, ou frequências indesejadas por conta do reverb da sala, além da minha falta de experiência pra captar tudo devidamente", conta. O responsável por mixar e editar tudo foi o também produtor Jackson Pinheiro, baixista na banda que acompanha André.

"Calmas Canções..." tem participações de Rick Ferreira tocando guitarra em "Gatinho na Internet", que também ganha participações de Jackson Pinheiro, no baixo, da esposa de Prando, Luara Zucolotto, na voz, e dos gatos Larika e Chapado, com quem o casal vive. Felipe Duriez toca guitarra em "Dharma", e Federico Puppi toca cello em "Clamor no Deserto". A música de Belchior também tem percussão de Carlos Sales.

Confira abaixo a entrevista com o músico.

Músico capixaba André Prando
Músico capixaba André Prando. Crédito: Luara Zucolotto/Divulgação

O processo de isolamento te motivou a lançar o EP, mas o trabalho  não é necessariamente sobre a situação que vivemos. O que essa situação mudou na sua forma de ver, no que ela te inspirou?

Sempre me preocupo em não deixar que as composições soem rasas ou sem sentido no futuro. Pescar os trending topics e surfar nisso é uma façanha e admiro quem sabe fazer bem, mas acho perigoso em muitos sentidos. Não foi o caminho que trilhei. Trabalhar um EP que passeia pela temática do isolamento social, da crise política, da crise sanitária, etc, foi uma tarefa de extremo cuidado. Ser mal interpretado num momento tão sério e delicado de nossa história seria um tiro no pé. Mas foi um processo natural, as duas músicas autorais já estavam em andamento, então o isolamento trouxe o toque final a elas, sabe? Um direcionamento final, uma reflexão pro nosso futuro incerto, que demanda um olhar atento no hoje. Como sempre, gosto de criar poesias de diferentes camadas de interpretação, possibilitando outras leituras em futuras épocas. Acho que o principal tapa que levamos neste momento é que se a gente não começar a pensar coletivamente, com empatia, cuidando do planeta, a humanidade não vai sobreviver... e estamos nesse processo. Acho que foi a maior inspiração, se for parar pra pensar nesse sentido. Ainda estamos longe de mostrar que entendemos esse processo.

Como você deixa claro no release, você não tem um home studio. Como foi, então, a produção dessas músicas?

Eu tenho um computador, uma placa de som simples, os instrumentos, um par de caixas de som e, principalmente, uma cabeça inquieta. Consegui fazer a gravação porque meu parceiro Henrique Paoli - músico, produtor e arranjador do “Voador” (2018) – tinha me emprestado um microfone condensador. Acho importante enfatizar que foi uma produção em casa, porque um home studio de verdade geralmente tem um mínimo de tratamento acústico, um pouco mais de aparato. Eu fiz no nosso quarto/escritório aqui no apartamento, muito ruído da rua foi captado durante as gravações, ou frequências indesejadas por conta do reverb da sala, além da minha falta de experiência pra captar tudo devidamente. O responsável por mixar e editar milagrosamente esse trabalho foi o Jackson Pinheiro (também parceiro, que toca baixo em minha banda). Ele foi muito generoso em aceitar esse desafio e me impressionou com as soluções, a agilidade e a atenção em todo o processo, merece muito destaque no resultado!

Como rolaram as participações?

Comecei as gravações pela música “Dharma” e a ideia inicial era que o EP fosse um registro apenas voz e violão. Enquanto gravava os temas instrumentais, pensei “pô, isso aqui ficaria lindo com uma guitarra slide”... daí a primeira pessoa que pensei em chamar foi o Felipe Duriez, amigo guitarrista incrível que sei que arrebenta no slide. Chamei, ele gravou no mesmo dia na casa dele, me enviou, eu adicionei ao projeto e ficou sensacional. Daí pensei que seria muito especial se o EP tivesse participações à distância, reforçando ainda mais nossas conexões, mesmo em isolamento. Em seguida convidei o amigo italiano Federico Puppi pra gravar cellos em “Clamor no Deserto” imaginando o drama e psicodelia dos cellos que ele pensa de uma forma única. Ele já havia gravado comigo no “Voador” (2018) na faixa “O mundo com tudo que há” e adoro o jeito como ele pensa os arranjos. Nem quis dar coordenada nenhuma, deixei ele expurgar e criar. Gravou lá no sítio em que ele está passando essa temporada de confinamento e me enviou rapidamente. Ficou perfeita pra fechar o EP num clima mais reflexivo e emocionante. Outra participação convocada foi o amigo Carlos Sales, músico e produtor carioca, pra gravar percussões na faixa “Clamor no deserto”. Semanas antes (na semana que antecedeu o início da quarentena), eu fui fazer um show no RJ com o Posada e fiquei hospedado na casa do Carlitos – foi nessa ocasião que ele me apresentou ao Rick Ferreira, inclusive! – aí ouvi algumas coisas lindas que ele estava produzindo e a percussão foda ficou na minha cabeça. Sempre fui fã dele e a gente já queria gravar coisa juntos há mó tempão. Foi perfeito. Em seguida o convidei pra gravar percussão em “Gatinho na internet” também. Nas duas músicas ele deu ideias de arranjo incríveis através da percussão, eu sempre ia dando as coordenadas que ia imaginando e ele, além de captar, vinha com ideias ótimas. “Gatinho na internet” foi a última música que gravei. Durante o processo fui montando o arranjo pensando justamente no Rick Ferreira. Havia conhecido ele semanas antes na casa do Carlitos. Na ocasião conversamos o dia inteiro, tocamos e cantamos muito Raul Seixas juntos e até começamos a gravar um projeto que futuramente eu volto a falar com vocês a respeito. A conexão foi muito boa e mantivemos contato. Eu sou absolutamente fã do trabalho dele, né? Vários grandes sucessos da música brasileira têm a guitarra de Rick. Sem falar no pedal steel, um instrumento que ele praticamente foi o precursor no país. Pra quem não conhece o instrumento, imagina aí agora o tema country de “Cowboy fora da lei” do Raul... imaginou? Pronto, esse instrumento, esse Rick. Foi super receptivo e entusiasta com o convite! Deixou claro que, independente da amizade, a música o agradou. Gravou os temas que eu sugeri na guitarra, criou outras ideias e criou todo o arranjo do pedal steel. Eu caí pra trás quando recebi tudo e ouvi aqui em casa, imagina... As cerejas do bolo foram em “Gatinho na internet”. Achei que merecia um groove de baixo e Jackson Pinheiro – que já estava todo envolvido com a mixagem - topou na hora, conversamos sobre a vibe e ele gravou na mesma hora. Pra finalizar, não tinha como fazer um EP confinado em casa, falando sobre as circunstâncias, e ignorar todos os habitantes deste apartamento. Dessa forma, gravei a voz da Luara cantando o refrão comigo e os miados dos nossos gatos Larika & Chapado. Pronto!

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"Acho que o principal tapa que levamos neste momento é que se a gente não começar a pensar coletivamente, com empatia, cuidando do planeta, a humanidade não vai sobreviver... e estamos nesse processo"

Essas músicas podem ganhar versões com banda completa?

Não sei se eu voltaria em estúdio pra regravá-las. Acho que as circunstâncias que levaram a esses registros têm seu valor. Mas COM CERTEZA serão músicas presentes em shows com a banda, assim que voltarmos a nos apresentar publicamente.

Você gravou “Clamor no Deserto”, do Belchior, lançada originalmente em 77. É impressionante como as músicas dele dialogam com angústias e incertezas. É uma inspiração pra você também nesse sentido, nessa conexão atemporal?

Tomei um tapa enorme quando a ouvi durante a quarentena. Eu amo os compositores que conseguem traduzir seu recorte de tempo através da música e, ao mesmo tempo, conseguem soar universais e atemporais. Sem dúvida é um aspecto que me inspira, sim. Procuro estar atento a isso ao compor. Dá essa sensação de profético que as pessoas identificam em Raul Seixas, Sérgio Sampaio, Belchior, Alceu Valença, Zé Ramalho, Chico, Caetano, Gil, Tom Zé, Mutantes... são geniais.

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Músico capixaba André Prando com os gatos Larika e Chapado. Crédito: Luara Zucolotto/Divulgação

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"Criar nesse momento é um lampejo, não acho certo dizer que está sendo produtivo, a sensação é apenas de estar sobrevivendo. Tenho aproveitado o tempo quando a cabeça possibilita, pois “ter tempo” agora não é necessariamente tempo “vago”"

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“Gatinho na Internet” já existia antes do isolamento, mas tem algumas modificações ali para contextualizar a música pra situação, inclusive uma parte que nem tá na letra da música… Como essa coisa toda tem mexido com você, com seu jeito de compor, suas inspirações?

Sim, antes já havia o refrão e a primeira estrofe, durante a quarentena ela foi finalizada e naturalmente atualizada, já que é uma música que fala de episódios reais de uns anos pra cá, crise política, crise ambiental, pandemia, memes, etc. Essa coisa de começar e terminar composições com grande espaço de tempo já é parte do meu processo, faço bastante. Essa música mesmo, o Jackson já tinha finalizado a mixagem e eu grilei com um verso, fui lá e regravei. Enquanto não tá pronto, não tá pronto. Criar, neste momento é um lampejo, não acho certo dizer que está sendo produtivo, a sensação é apenas de estar sobrevivendo. Tenho aproveitado o tempo quando a cabeça possibilita, pois “ter tempo” agora não é necessariamente tempo “vago”... é um momento de incertezas, às vezes a gente se sente só atordoado mesmo. Não posso dizer que esteja fazendo planos pra nada, por aqui, em casa, estamos vivendo um dia de cada vez. Ter que se virar pra dar jeito de pagar as contas é uma preocupação real. Tentando entender o processo e pra onde estamos caminhando como humanidade, ao invés de assistir todos os noticiários freneticamente, estamos vendo moderadamente e refletindo muito mais.

Dá tempo de jogar o “Final Fantasy VII Remake”, produzir, arrumar a casa, fazer lives… Como você tem se organizado? O que você faz pra “desanuviar” nessa quarentena?

É, quem me conhece sabe que eu sou bem viciado em jogos, principalmente RPG. Eu aguardei tanto por "Final Fantasy 7 Remake" que quando saiu eu me permiti passar algumas noites em claro jogando. Eu gosto de poder mergulhar, então tinha que ser de madrugada. Aqui somos eu, Luara e nossos gatos, né? Temos cozinhado mais, faxinado mais, lendo coisas juntos, séries (terminamos de ver "Mr. Robot" recentemente, recomendo!), filmes (vimos “O Poço” ontem! Muito pertinente pro momento que vivemos!) e sempre entramos em longas discussões sobre essas obras. Obviamente a situação do mundo é desesperadora e cheia de incertezas, mas acho que todos deveriam estar aproveitando pra fazer aquilo que normalmente a gente costuma dizer “ah, não tenho tempo pra isso... praquilo”, separar roupa pra doação, desapegar do que não faz mais sentido... agora é a hora de resolver algumas dessas coisas. Rever os costumes, se importar mais uns com os outros, com o coletivo, olhar pra dentro, refletir. É um momento de travessia, espero que as pessoas percebam cada vez mais que o planeta está tentando conversar com a gente. É uma das leituras que faço.

Quais seus planos pra quando isso terminar? Mesmo afrouxando o isolamento, pro músico, que vive de shows, pode ser complicada a rotina se normalizar...

Não faço ideia. Acho que vai demorar um pouco pra shows e eventos voltarem a fazer sentido, de forma prudente. Profissionalmente eu ainda não sei como vão ser as coisas. Acho que vou precisar me virar mais um bocado de tempo através de lives e minha lojinha on-line. Mas, sem dúvida, encontrar as pessoas que amamos, chapar coletivamente e poder respirar e desfrutar da natureza são prioridades pra quando pudermos sair de casa.

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