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Crítica

"Amarração do Amor": humor, romance e religião em filme irregular

"Amarração do Amor" usa a fórmula das comédias românticas para construir um filme sobre religião que até diverte, mas se esquece de seus protagonistas

Publicado em 13 de Outubro de 2021 às 22:30

Públicado em 

13 out 2021 às 22:30
Rafael Braz

Colunista

Rafael Braz

Filme "Amarração do Amor" Crédito: Paris Filmes/Divulgação
As comédias de costumes religiosos são super tradicionais na indústria de entretenimento americana. Há décadas roteiristas usam os dogmas de cada religião e os conflitos causados por eles para fazer humor e criar conflitos para as tramas (os judeus são mestres nisso). No Brasil, no entanto, a prática não é comum - por aqui há a convenção de que “com religião não se brinca”, e talvez seja justamente por isso que ainda não tenhamos uma grande obra do gênero.
“Amarração do Amor”, de Caroline Fioratti, tenta explorar o subgênero, nem sempre com muito sucesso, mas sempre com esforço. O filme, que chega aos cinemas nesta quinta (14) usa uma fórmula batida, o casamento de dois jovens de religiões diferentes, para criar os conflitos entre duas famílias.
Assim, logo no início conhecemos Bebel (Samya Pascotto) e Lucas (Bruno Suzano), um jovem casal que decide se casar. Em uma rápida edição, aprendemos que a religião da família de ambos já era um conflito no relacionamento, mas ninguém tinha noção do que se tornaria com a proximidade do casamento. Bebel é de uma tradicional família de judeus, enquanto Lucas vem uma família dedicada a Umbanda. O casal planeja fazer uma celebração simples, respeitando as religiões das famílias, mas Samuel (Ary França), o pai de Bebel, e Regina (Cacau Protásio), mãe de Lucas, têm planos bem diferentes para a cerimônia.
“Amarração do Amor” tem momentos de um “Romeu e Julieta” contemporâneo, mas traz conflitos bem menos dramáticos. O humor surge inicialmente na falta de prática do casal com a religião um do outro, mas ele cresce mesmo é com Samuel e Regina botando em prática seus respectivos planos para o casamento, mesmo que eles não representem exatamente o que está combinado com os noivos.
É interessante ver como o texto se esforça para ser respeitoso com ambas as religiões, fruto das consultorias de Mãe Nancy e Michel Gherman, que dão toques bem fidedignos aos ritos do judaísmo e da umbanda e conferem verdade às cenas. Ary França e Cacau Protásio roubam a cena e os arcos de humor do filme; são eles os responsáveis pelos conflitos, pela teimosia de manter as tradições enquanto o resto das famílias.
Filme
Filme "Amarração do Amor" Crédito: Paris Filmes/Divulgação
O antagonismo dos dois funciona bem e garante boas risadas, mas é também um problema para a estrutura do filme. Envolto nos conflitos de Samuel e Regina, “Amarração do Amor” deixa pouco espaço para o relacionamento de Bebel e Lucas, o que é uma pena, pois Samya Pascotto e Bruno Suzano funcionam bem juntos nas cenas utilizadas para desenvolver o relacionamento do casal e até mesmo quando defendem seus respectivos pais nas brigas. Restam-lhes, então, as sequências clichês de comédias românticas, aquelas viradas que sabemos que vão acontecer e que oferecem um certo conforto ao espectador.
O filme de Caroline Fioratti funciona melhor como uma comédia sobre costumes religiosos do que como comédia romântica, transferindo o protagonismo de Bebel e Lucas, que desaparecem no segundo ato, para os pais deles e perdendo parte de seu charme. O texto poderia, por exemplo, usar com o casal o tempo gasto no arco de Ilan (Vinicius Wester), que pouco acrescenta à trama, ou no lugar da pequena aparição de Sara (Bel Kutner), que surge inclusive em um dos momentos que o filme opta pelo caminho fácil, o esperado pelo público, e tropeça no aspecto religioso. Em contrapartida, a veterana Berta Loran é ótima como o alívio cômico do filme que, ao fim, se revela até uma boa virada com a mensagem do roteiro.
Filme
Filme "Amarração do Amor" Crédito: Paris Filmes/Divulgação
“Amarração do Amor” é bom quando ousa e representa as religiões de maneira nem sempre vista na dramaturgia pop brasileira, mas acaba se esquecendo dos supostos protagonistas de sua comédia romântica. Ainda assim, é fácil entender a empolgação dos envolvidos com o lançamento nos cinemas, afinal, após tanto tempo de salas fechadas, voltar a elas é uma grande conquista. O filme, no entanto, teria seu potencial mais bem explorado em uma plataforma de streaming como uma opção de entretenimento leve, bem-feito e confortável.

Rafael Braz

Crítico de séries e cinema, Rafael Braz é jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso, é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

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