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É bacharel em Filosofia. Com um olhar sempre atento para as ruas, reflete sobre as perspectivas de cidadania diante dos problemas mais visíveis da Grande Vitória

Pedágio vale mais do que a vida de quem vive às margens da BR 101

Em cidades como Serra e Viana, para trabalhar ou para ter acesso a bens e serviços, muitas pessoas passam sufoco ou correm risco de vida ao atravessar a rodovia em direção a empresas, bancos, supermercados e cartórios

Publicado em 01/06/2021 às 02h03
Duplicação da BR-101/ES/BA (Trecho Viana a Guarapari) e entrega dos viadutos de Amarelos (321) e Guarapari (335)
Duplicação da BR-101/ES/BA (trecho Viana a Guarapari) . Crédito: Vitor Jubini

A lógica rodoviarista, própria de empresas como a concessionária Eco101, privilegia o veículo automotor em detrimento das pessoas. Essa lógica lança os moradores de cidades como Serra e Viana a uma sanha pela sobrevivência às margens da BR 101. Sem acessibilidade garantida, com barreiras físicas e comunicacionais, a sinalização vertical, horizontal e semafórica exclui pessoas com deficiência e mobilidade reduzida e também limita o acesso de pedestres e ciclistas.

Todos os dias, seja para trabalhar, seja para ter acesso a bens e serviços, muitas pessoas passam sufoco ou correm risco de vida. Elas atravessam a rodovia em direção a empresas, bancos, supermercados, cartórios, que ficam às margens da BR 101. É o caso de Viana, na altura do km 298, região com maior desenvolvimento na entrada do bairro Marcílio de Noronha. Há um loteamento novo que conta com um supermercado recém-inaugurado, lojas, banco, onde será em breve um shopping.

A prefeitura exige calçada cidadã e acessibilidade nos empreendimentos. Mas é visível ao longo da BR 101 que na parte que compete à concessionária não existe acessibilidade para pessoas com deficiência, muito menos ciclovia. Para acessar de um lado a outro da cidade, o cidadão, a pé ou de bicicleta, não tem muita alternativa a não ser se arriscar em meio aos carros. Pois a empresa Eco101, responsável pela BR 101, não construiu calçadas acessíveis e nem rampa de acesso para cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida.

O espaço não é nada humanizado. Sem contar que alaga tudo em época de chuva, devido principalmente à intervenção da concessionária no local. Uma obra feita às pressas, sem levar em consideração estudos de impacto hídrico. Agora quem sofre com as consequências são os moradores, os empreendedores da cidade.

Os semáforos não são acessíveis e não priorizam, em nenhum dos pontos de travessia, o trabalhador e pessoas com deficiência. Embaixo dos viadutos, quando há faixa de pedestre, não atendem à legislação. Para o veículo seguir, o condutor tem que parar em cima da faixa, observar o tráfego para poder avançar com segurança. E o pedestre, motivo pelo qual a faixa existe, caso precise atravessar para o outro lado da pista, arrisca-se na disputa com os carros e caminhões.

Na Serra, a situação não é muito diferente, moradores dos bairros Jardim Bela Vista e Divinópolis todos os dias se arriscam para conseguirem participar da vida da cidade. Líderes comunitários, como o Sr. Edson Reis, há anos cobram da Eco101 resposta sobre construção de rampas com inclinação para acesso para cadeirantes, com corrimão para pedestres, nas imediações da BR 101, mas quando se trata de atender os moradores a resposta é negativa.

O Departamento Nacional de Infraestrutura em Transporte (Dnit) por meio de seu Instituto de Pesquisas Rodoviárias (IPR) reconhece que o principal impacto gerado pela travessia urbana é a segregação espacial. É quando as classes sociais ficam concentradas em determinadas regiões ou bairros de uma cidade. Essa segregação ocorre em locais onde há uma diferença de renda entre os grupos, uns possuem as melhores condições de moradia e serviços, e outros não possuem nada parecido.

Em relação à BR 101, as suas obras de intervenção, com grandes paredões de concreto, demarcaram e estabeleceram os limites dessa travessia urbana. Com o modelo rodoviarista de intervenção, ela privilegiou o veículo automotor e os moradores, que andam a pé, de cadeiras de rodas e os ciclistas, foram segregados. Na verdade, eles não pagam pedágio.

Assim, a configuração da rodovia nessas áreas especiais torna-se um obstáculo à qualidade de vida urbana. Essa situação faz com que moradores das regiões lindeiras, que demandam atividades em ambos os lados da rodovia, sejam obrigados a atravessá-la, correndo todos os riscos associados ao tráfego.

Como consequência disso, a BR 101 é a rodovia com o maior número de acidentes em 2020, onde foram contabilizados um total de 1.579 acidentes com vítimas, segundo Confederação Nacional dos Transportes (CNT). Por tudo isso, esse é um tema necessário e urgente a ser tratado por nossas autoridades do Estado, de modo especial na Assembleia Legislativa, por meio da Comissão Especial de Fiscalização da Concessão da BR 101.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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