Como usuário do transporte coletivo não poderia deixar de relatar o que tem acontecido ao andar de ônibus nestes dias de pandemia. As linhas que atendem a periferia da Grande Vitória têm ônibus muito ruins. Carros antigos, modelo sucata. Muitos deles com janelas de vidros que batem o tempo todo. Sem falar no ronco do motor, o barulho exagerado ao frear e o ranger ao passar a marcha. Clara demonstração de que se trata de uma sucata.
Alguns com roleta com parafuso solto e com um barulho insuportável. E outros tem as cadeiras com parafusos soltos, que ao passar nas lombadas, joga o passageiro pra cima com risco de se machucar. É possível ver também que muitos ônibus têm poeira nos assentos, no corrimão, descida da porta. Fica nítida a falta de limpeza usual do carro. Mas como estamos numa pandemia, como fica a higienização dos veículos nos intervalos das viagens? Certamente não está acontecendo como deveria.
Andar de ônibus se tornou um grande risco para quem precisa sair de casa para ganhar o pão de cada dia. Mas com quem reclamar destes ônibus que não servem mais para transportar os capixabas? “Pra quê reclamar”, alguns disseram. “Não tem como resolver isso, isso sempre foi assim!”, outros exclamaram.
Esta passividade do cansado trabalhador que toma estes ônibus todos os dias é preocupante. Ainda mais em tempos difíceis como este que estamos atravessando. Infelizmente, todos nós, quando submetidos a situações adversas que afetam diretamente a vida e o cotidiano de forma repetida, tendemos a aceitar e, portanto, não responder mais.
E isso acontece com os ônibus. Os usuários não reagem a estes estímulos repetidos com barulhos, lotação, insegurança e tendem a aprender a conviver com eles. Incorporam os mesmos ao cotidiano como algo aceito e normal, mesmo em tempos trágicos.
Na pandemia que estamos, ainda em situação de risco extremo na Grande Vitória, ao naturalizar e aceitar com tranquilidade o ir e vir todos os dias em ônibus ruins e lotados, as possíveis reações de indignação, protesto, são paralisadas. E a vida segue; mas a morte também.
A necessária tentativa de conciliar as atividades econômicas com a preservação da vida é prioridade, sim. O trabalhador nunca se negou a ir trabalhar, mesmo em sucatas, carros sujos lotados. Mas o governo, fiscal do povo, deve exigir dignidade no transporte público para o trabalhador. Contudo, já passou da hora dos empresários do transporte público, que detêm o monopólio na Grande Vitória, fazerem sua parte em favor da vida e colocar mais ônibus, acima de tudo novos, em todas as linhas. Este é o mínimo que o capixaba espera para seguir com vida.
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta