As cidades capixabas têm novos prefeitos. Dentre os muitos desafios que vão enfrentar nestes quatro anos, está o necessário debate sobre o futuro da mobilidade nas cidades. E quando se fala em planejamento urbano, todos os segmentos apresentam-se bem representados. Temos os donos de aplicativos e táxi, sindicatos das empresas de ônibus, comerciantes, perueiros, empresas de automóveis, associações de ciclistas e motociclistas. Entre tantos interesses em jogo nesta disputa tensa, o mais nobre dos participantes inexiste e não se faz presente. Quem anda a pé, o pedestre, quase não é ouvido.
No artigo “Os desafios de uma política de mobilidade transformadora das cidades”, Renato Boareto enfatiza que os diagnósticos dos problemas de mobilidade urbana são feitos para priorizar a visão dos motoristas que dirigem carros individuais. E os modelos usados no planejamento urbano de deslocamento têm por base a realidade de países que tem no carro a principal forma de transporte em suas cidades.
Com isso, o pedestre tem o seu “direito de ir e vir” limitado e até impedido. Quando se fala no dia a dia do tráfego em nossas cidades, o ambiente urbano da Grande Vitória não é diferente. Existe um UFC (luta de combate) entre o carro e o pedestre. E o grande problema é que os motoristas são pedestres em algum período do dia. E, mesmo assim, o fato de também serem pedestres não os impede de se comportarem como “inimigos”, com situações de conflito, ocorrência de acidentes e até mortes.
É como se o pedestre, ao se apoderar de um carro, se transformasse em um super ser iluminado, com poderes extraordinários. Tanto é que algumas pessoas confinam-se dentro dos carros e outras, fora destes veículos, sentem-se ameaçadas e excluídas da vida nas ruas e avenidas da cidade onde moram. Arriscam a vida num malabarismo diário. Isso se dá porque a literatura dos planos de mobilidade urbana, que deveria privilegiar o pedestre, dá destaque aos veículos motorizados ao invés das pessoas.
Afinal, existem mais pessoas do que veículos em qualquer lugar que se olhe, mas quando se fala em espaço nas ruas a proporção não é a mesma. A quantidade de carro é muito superior ao destinado ao pedestre. O carro é o queridinho da cidade e circula nas avenidas como se fossem passarelas. O que fica para o pedestre são as calçadas, muitas vezes com buracos e obstáculos. Elas que deveriam ser como ilhas de segurança para a garantia de vida dos pedestres.
Uma olhada nos dados mostra que é preciso investir mais em pesquisa se quiser construir cidades para pessoas. Aliás, cabe até perguntar: por que não foram feitas mais pesquisas Origem e Destino na Grande Vitória? Apesar de cara, ela se constitui em uma importante fonte de informações de relevância pública. Seus dados permitem conhecer a forma como as pessoas se deslocam, os obstáculos que encontram, as variáveis que interferem na geração de viagens urbanas, nos volumes e modos de execução da política.
Os pedestres, infelizmente, são considerados invisíveis no planejamento e execução das políticas públicas nas cidades. Por isso não se encontra dados sobre andar a pé como meio de transporte nas ruas da Grande Vitória. Em alguns países o celular é usado para favorecer o acesso a dados de deslocamentos por pedestres e elaborar pesquisa. Mas, aqui, os poucos modelos de pesquisas existentes são antigos. Como pedestre não têm rodas e usa a sua energia para se deslocar, sobre ele não é feita publicidade e não pagam impostos por saírem de um lugar a outro.
Enfim, em uma sociedade que tem como meta o status quo de consumidor, quem não tem carro e anda a pé é visto como aquele que não conseguiu comprar um veículo e, assim, um miserável urbano que vive das migalhas da urbanização. Por isso o termo “pedestre” ainda tem um significa de “rasteiro”, “inferior”. Mas andar a pé na cidade está mudando de status rapidamente, assim como andar de bicicleta. É preciso da muitos passos, de modo especial pelos novos gestores, para que os pedestres possam seguir com seus próprios pés até os lugares que desejam e precisam.
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta