Escrevo no Dia das Mães. Estou convencido de que o mundo só existe se todas as coisas, os issos, se relacionarem entre si, e se nomearem. Não sei, acho que faz sentido isso. Todas as ideias e tendências das ciências humanas, seja de quem for a autoria.
Os considerados pensadores, através dos séculos, estão convencidos de que nada existe se o outro, ou os outros não existirem ou desistirem, ou seja lá o que for. Cada vez que a recordação, ou a lembrança de um objeto de relação, digamos, pessoa e coisa para capturar o nada, a morte desaparece. Os objetos na sua relação com o outro – relação self objetal, por exemplo – surge de uma cena em algum lugar que não havia.
Hoje, minha memória viajou para a minha mãe. Não consigo vê-la sem as suas coisas de relação. Agorinha mesmo, vejo Dona Mariucha. Mato saudade e fixo a imagem de sua arte, o tricô, que fazia de variadas formas. Estão presentes na minha memória neste instante as linhas e agulhas e me vem o cheiro de um solene macarrão único, com paio e queijo que não sei por que caminho ela preparava ao mesmo tempo em que tricotava. Talvez seja mentira da minha mente isso.
Olho para frente e vejo o retrato de minha filha Alice e ela e me olha e fala. E embora, através de um retrato, me anuncia, para daqui a uns meses, uma neta. Logo aparecem neste vasto campo sem esquecimento Gael e Valentim, os netos, já crescidinhos. E olha que estão lá em Paris, onde moram no momento.
Logo, passeio pela lembrança da filha Paula e seu filho, meu neto Bento, com aquela cabeleira negra e bela. A imagem me lembra eu.
Acho que devo citar a verdade segundo a qual quando pairam as lembranças, a morte não existe. A lembrança transpõe, sobrepõe, atravessa, e o que mais aparecer, todas as barreiras criadas por Zeus e não vai ser o seu humano o encarregado, através das filosofias e das ciências, da lógica dos sinais e sintomas para decidir isso e qualquer mais enquadramento que aparecer.
Somos nós quatro irmãos: eu, Geraldo Sérgio, que vejo neste momento dedilhando um violão, e logo aparecem árvores coloridas de laranjais por onde passeiam Maria da Graça e Carlos Nelson, que não estão no momento neste mundo inventado, ele vestido de terninho e ela de vestido colorido de tafetá, com barra de renda. O detalhe, segundo as leis da ciência, é que ambos já morreram há muitos e muitos anos. Pois os vislumbro. Não houve esquecimento.
Não sei por que surgem neste momento guardadas nas nuvens mágicas da amizade Sergio Egito, fazendo graça e torcendo pelo América. Logo surge o retrato da redação do jornal O Diário, o maior jornal da Rua Sete.
Muitas coisas e "issos" que gostaríamos de ver, talvez. Neste momento, entra em campo do imaginário, com aquelas canelas finas, jogando o fino no meio de campo do futebol. João Francisco. Logo depois aparece no meu pensar Arinos, que conseguia desaparecer com a bola e reaparecer onde quisesse.
Aparece e desaparece Landinho, o responsável pela minha adoção pelo América, o meu tio. Este jamais aparece e desaparece no Cachambi.
Continuo minha pesquisa a respeito de gêneses dos fantasmas.
Doria Gray, meu cão vira-lata, deu de frequentar porta de igreja.