Outro dia, quando recomecei a trabalhar no consultório, espaço para que o paciente “se interprete”, perguntas e respostas que sempre me pareceram próprias da técnica, dediquei um tempo a perceber que toda a importância do setting analítico é uma relação pessoa a pessoa. Tenho que reconhecer a necessidade da organização didática da teoria que permite ou facilita a transmissão de tal conhecimento.
Quase abri mão de interpretar, e tentei mirar o inconsciente, a hóstia benta consagrada por Freud. De repente, flagrei-me aconselhando, baseado na minha própria experiência, e outros dados concretos e lógicos como se fosse um “behaviorista” pragmático.
Não se pode ignorar ou negar a existência do inconsciente, percepção mágica rara lapidada por Freud, Melanie Klein, e todos os deuses desta função que nos completa, abastece e captura o pensar sentido.
A chamada Terapia Comportamental parece ser mais veloz, embora esteja indicada para funções específicas e lógicas. Nos anos 50 e 60, no auge da discussão sobre o modelo do consciente e inconsciente, a ideia chegava a ocupar nos Estados Unidos, em grande parte, a programação de rádio e a adolecente TV em debates pró e contra os dois modelos que eu e muita gente julgávamos os principais eixos.
Carl Rogers elaborou a Terapia Centrada no Cliente e o behaviorismo em quase oposição obedecia a lei de Skinner. Aos poucos foram aparecendo métodos e técnicas inteligentes que nos arrebatavam a atenção e o espírito, tais como a Gestalt, proclamada pelo suiço Fritz Perls, que dava, por exemplo, como auxílio de técnica a tarefa do paciente sonhador interpretar seu próprio sonho ou parte dele e continuá-lo conscientemente. Uma genialidade. Ampliava ao menos teoricamente o efeito da consciência. Divulgava a seguinte oração, bem próxima da sua realidade, em seus livros: “Não vim ao mundo para corresponder às suas expectativas, nem você as minhas. Se nos encontrarmos, que bom, senão, não há nada a fazer”.
O pragmatismo e outras competências fez com que a Psiquiatria Clássica sempre liderasse com convicção os hospitais ou casas para internar o “sofredor da alma”. Necessitado ou não de isolamento. Considerando que principalmente com a ação política e pesquisadora de Pinel e a chegada dos psicofármacos – alguns inevitáveis em casos específicos, como delírios, alucinações e outros processos dissociativos, – a psicologia, já enriquecida com a visão psicossomática, foi ocupando espaço nos hospitais. Nesse campo, a psicologia psicanalítica pôde mostrar sua utilidade, como faz até hoje.
Mudando de conversa, Matheus Leitão, “Em nome dos pais”, quando ao falar da mãe, Miriam, e do pai, Marcelo, que eram militantes antiditadura, refere-se ao jornal “O Diário”.
"O Diário" era, segundo Matheus, “um conhecido centro de esquerdistas que ‘ousaram’ transgredir a ordem da censura. Paulo Bonates - eu - tentava transgredir a ordem da censura”. Com muito prazer havia convidado Miriam Leitão para iniciar sua carreira no jornalismo. Era difícil adaptar seu texto.
Como editor de texto, recomendei cautela ao cobrir um movimento na Medicina da Ufes. Aqueles diabos de 64 estavam em toda arte. Ela foi, fez o texto, e eu tive que pedir que desse uma amaciada de sobrevivência. E assim eram as coisas.
Estudando psicanálise, dei de cara com a soberba psicanalista, a francesa Élisabeth Roudinesco, e achei em um livro seu, “O paciente, o terapeuta e o Estado”, e fiquei encantado. Começa assim: “quando detiveram os comunistas, não disse nada, porque eu não era comunista. Vieram me pegar, eu não disse nada, porque não era socialista, fiquei na minha porque eu também não era nada que já não existisse em mim. Daí vieram prender os dirigentes sindicais, eu não disse nada porque não era sequer dirigente sindical. Em seguida foi a hora e vez dos judeus, eu não disse nada porque não era judia".
Me dá medo – diz ela – o horror que sentimos ao ler esse testemunho, apenas pelo seu valor da verdade universal. “Mesmo que vivamos em uma democracia ou ditadura ou pertençamos a uma comunidade qualquer, não devemos ceder nunca através do silêncio, nem sequer à aceitação da arbitrariedade legal.
No setting psicanalítico, muitas vezes o silêncio do terapeuta e do paciente pode ser brilhante Isso não é silêncio.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, ficou em silêncio.