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Crônica

A história do meu primeiro e glorioso roubo

Naquela sexta feira, Santo Agostinho faltou com a palavra. Peguei o volume de pessoa para comprar e só no bonde, a caminho de casa, me dei conta de que não havia pago.

Publicado em 04 de Julho de 2023 às 00:30

Públicado em 

04 jul 2023 às 00:30
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Eu era menino e onde hoje em dia é o Edifício Central, pertinho da Cinelândia, Rio de Janeiro, foi cenário de uma história minha. Ali, a Livraria São Paulo dava para uma praça, a estação de bondes, a ladeira para Santa Tereza, a central de estudantes do chope, o Amarelinho, o Tabuleiro da Baiana, e enfim o acesso ao bondinho.
Mensalmente, chegavam à livraria os mais recentes lançamentos de todas as tendências. Como todos os colegas do “Calabouço”, que ficava logo ali no recente aterro do Flamengo, todo fim de mês ficávamos rodeando as obras à espera dos autores prediletos.
Quando a caminhonete de entrega chegava, mal abria as portas e esparramava cultura sob todas as formas e a gente ficava apreciando o arrumar de prateleiras. Meu predileto em língua portuguesa era e é Fernando Pessoa. Às vezes, não vinha nenhum de sua autoria. Pior do que o América perder.
Comprávamos logo os exemplares e começava a leitura ali mesmo na pracinha. Nos dias seguintes, outras operações envolvendo muitos autores e autoras.
Havia naquele tempo dois pacotes privilegiados: “O livro de cabeceira do homem” e o “Livro de cabeceira da mulher”. Quem não leu?
Naquela sexta feira, Santo Agostinho faltou com a palavra. Peguei o volume de pessoa para comprar e só no bonde, a caminho de casa, me dei conta de que não havia pago.
O meu colega de turma, Frederico Arruda, muito gordo e sacana, deu um berro: “Tu não pagaste o livro?"  Não, esqueci. No meu imaginário, todos os passageiros da Cinelândia estavam se preparando para a minha condenação.
livros
Livros Crédito: freepik
Saí do bonde e voltei à livraria, quando abri minha carteirinha de plástico, nenhum cruzeiro. O santo da minha fé não estava a fim de ajudar ou perdoar.
O gerente, seu Borba, olhou-me de cima para baixo bem na hora que entrei na São Paulo para pagar. Naquela época o caminho entre consciente e inconsciente era terreno desconhecido para mim.
Seu Borba sorriu condescendente, colocou o polegar para cima e sugeriu: “Segunda-feira, você paga, ok?
Segunda, às 9 da manhã, paguei o livro. Mesmo assim, estudante naquela fase, não perdia a oportunidade de sofrer de culpa, de modo que acabei dando explicações por um mês a todo mundo. Alguns só de maldade gritavam na rua: “Ó do livro”.
Passou-se.
Criei uma relação de amor com essa lembrança. Continuo lendo e relendo os textos brilhantes e bem-humorados de Fenando Pessoa. Difícil parar.
Hoje, paira na minha estante da sala muitos livros disputando vaga na prerefência. Chego a imaginar a cena, ocorrida nos meus anos dourados, quando ler e escrever tinha um doce gosto. Nada termina se a memória não deixar. E ela não deixa.
Reproduz a cena original e a realidade aparece como figuras do teatro ou do cinema.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, late em vários idiomas.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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